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Vestibulando no Pará faz uso incorreto de estimulantes

Alguns estudantes acreditam que os remédios melhoram o desempenho


Por: O Liberal Em 24 de agosto, 2016 - 08h08 - Belém

Pessoas com diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) costumam fazer uso de medicamentos à base de cloridrato de metilfenidato para controlar quadros de impulsividade e hiperatividade. Até aí nada de anormal. O problema é que o remédio de tarja preta é um estimulante do sistema nervoso central e passou a ser usado também por estudantes que se preparam para o vestibular para dar conta de jornada de estudo que pode chegar a 15 horas diárias. A situação é comum e se intensifica no período que antecede a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em novembro.

A prática é mais comum em candidatos a uma vaga em cursos mais concorridos como o de Medicina, segundo o professor Claudio Muniz, que mantém há 36 anos um curso preparatório específico para estudantes que pretendem seguir a carreira médica. “Há 32 anos comecei a perceber esse comportamento em alguns de nossos alunos. Via muito a Ritalina, que é um estimulante do sistema nervoso central e a venda é livre nas farmácias porque não é antibiótico. Além disso, também tem a bomba, que eles chamam, que é café misturado com o refriegerante Coca-cola. Na internet tem muita coisa sobre o assunto, divulgando pílulas que prometem melhorar a memória e agora tem até uma que promete deixar o aluno mais inteligente. Isso é muito grave”, comentou.

Foto: Tarso Sarraf/O Liberal

No cursinho do professor Claudio Muniz, os alunos com idade média entre 17 e 19 anos encaram aulas de segunda-feira a sábado, com carga mínima de sete horas de estudo em sala de aula, além de mais sete horas de estudo em casa, participar de provas e simulados todos os domingos e descansar apenas nas horas de sono, à noite, para retomar a rotina no dia seguinte. “O cursinho não incentiva a utilização de estimulantes. Muito pelo contrário. Aqui nós coibimos. Aqui nós defendemos um comportamento vencedor; o aluno tem que estar focado e entender a condição dele. O aluno precisa entender que se ele não seguir a rotina de estudos no cursinho e estudar até 23 horas em casa, ele não vai conseguir passar”, defendeu o professor.

PROMESSAS

Diante dos desgastes físico e mental, muitos estudantes sentem vontade de fazer o uso de pílulas que prometem aumentar a concentração, potencializar os níveis de aprendizagem e garantir mais disposição para enfrentar a maratona de estudo. Quem já fez uso da Ritalina, um dos principais estimulantes usados pelos estudantes, garante que os efeitos colaterais não compensam as horas a mais de disposição.

A enfermeira Patrícia Benitez, 32 anos, se prepara para disputar uma vaga no curso de Medicina. Após ter experimentado o medicamento, ela o repudia. “Há dois anos eu tomei a Ritalina umas três ou quatro vezes e os efeitos colaterais não compensam. Na época, o meu endocrinologista me passou porque eu precisava fazer algumas provas e percebi que depois que o efeito do remédio passava parecia que eu tinha levado uma surra. Muitos estudantes e residentes tomam esses estimulantes para fazer uma prova ou pegar outro plantão. Hoje penso que não é um remédio que vai fazer um milagre. Você precisa descansar e estudar muito”, relatou.

A fonoaudióloga Raquel Souza, 31 anos, também tem o sonho de se tornar médica e há cinco anos tenta ingressar no curso mais concorrido dos vestibulares. Ela conta que para aguentar a pressão dos estudos, passou a consumir o Fisioton há cerca de um mês. “Fui na minha ginecologista e falei que precisava melhorar meu rendimento nos estudos. Ela me passou o Fisioton, que é um fitoterápico. Não tem cafeína e te dá um ânimo. Comecei a tomar há um mês e percebi que meu rendimento melhorou muito e minha concentração também”, afirmou.

A estudante Vitória Remor, de 19 anos, também usa o Fisioton, indicado por sua nutricionista. “Há três meses passei a usar esse fitoterápico. Antes eu cheguei a pensar em usar remédios sem a orientação médica, mas pensei melhor e numa consulta com a nutricionista ela me indicou o Fisioton”, comentou.

O neurocirurgião e neuroradiologista do Hospital Universitário Barros Barreto, Eric Homero Paschoal, alerta para os riscos à saúde desses medicamentos. “O uso deles faz com que o sistema cardiovascular se torne hiperexcitado e a pessoa tenha tendência à obesidade, hipertensão e diabetes, além de causar infarto e derrame cerebral. O uso desses medicamentos provoca a privação do sono, aumenta o período de alerta e isso faz com que o indivíduo fique mais cansado. Dessa forma, dificulta a fixação e o aprendizado, já que para que isso ocorra é necessário estudar e repousar”, avalia.

O médico também condena o uso de outros estimulantes. “Muitas pessoas usam a cafeína, energéticos e algumas medicações que aceleram o metabolismo e que são usados em academias, porque eles têm uma quantidade de cafeína elevada. Isso é prejudicial à saúde, além de não elevar o QI (Quociente de Inteligência) de ninguém”, ressaltou Eric Paschoal. Ele também abordou sobre o uso do Fisioton. “Não existe nenhuma evidência que isso traga um benefício. O que pode ocorrer é que pode ter efeito placebo e teria evidência - entre aspas -, de melhoria de alguns fatores físicos”, concluiu.