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Roubalheira nada banal

Porque são corruptos, é evidente


Por: O Liberal Em 06 de abril, 2017 - 07h07 - Editorial

Mensurar a corrupção em números talvez contribua para os espertalhões cínicos e inúteis se convencerem de que a corrupção é capaz de matar, deseducar e disseminar um círculo de desvirtudes que não tem fim.

Espertalhões cínicos e inúteis são, é claro, corruptos de todos os calibres, que vivem por aí minimizando a roubalheira como se fosse algo mais do que banal, que não deveria chamar maiores atenções e despertar maiores clamores porque, segundo esses espertalhões, “ocorre em qualquer lugar”.

Por que a corrupção mata e deseduca? Porque desvia somas fantásticas, fabulosas e espantosas de setores essenciais, como a saúde e educação. Porque priva o Poder Público de interferir concretamente nessas áreas, desenvolvendo políticas e iniciativas para oferecer melhores condições à sociedade, sobretudo ao enorme contingente que se vê sem alternativas, que não a de pagar hospitais e escolas particulares.

Números divulgados pelo Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU), indicam que as áreas de saúde e educação foram alvo de quase 70% dos esquemas de corrupção e fraude desvendados em operações policiais e de fiscalização do uso de verba federal pelos municípios nos últimos 13 anos. Os desvios revelam como recursos destinados a essas duas áreas são especialmente visados por gestores municipais corruptos.

Desde 2003, de acordo com o levantamento, foram deflagradas 247 operações envolvendo desvios de verbas federais repassadas aos municípios. Os investigadores identificaram organizações que tiravam recursos públicos de quem mais precisava para alimentar esquemas criminosos milionários e luxos particulares. Além de saúde e educação, também há desvios recorrentes em áreas como transporte, turismo e infraestrutura.

Deflagrada em 2011, a Operação Mascotch, por exemplo, desarticulou uma quadrilha que desviou mais de R$ 8 milhões de dinheiro da educação em 14 cidades do interior de Alagoas - o Estado com o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, similar ao da Namíbia, na África. Os recursos deveriam alimentar crianças nas escolas, mas eram na verdade usados para comprar uísque 12 anos e vinhos importados.

O levantamento inédito, feito com base em dados do governo federal desde 2003, mostra que houve fraude no uso de verbas federais em pelo menos 729 municípios - o que corresponde a 13% do total de cidades do País. Do Oiapoque ao Chuí, o prejuízo causado pela corrupção no período foi estimado em R$ 4 bilhões pela CGU.

São números verdadeiramente estarrecedores. E ainda pretendem os espertalhões cínicos sustentar que não. Porque são corruptos, é evidente.