Resíduo da extração da polpa de açaí gera problema ambiental

Não há empresas interessadas em lucrar com os resíduos da fruta


Por: O Liberal Em 21 de dezembro, 2014 - 18h06 - Pará

O consumo diário do açaí é uma das peculiaridades do povo paraense, principalmente na Região Metropolitana de Belém, onde existem batedores do fruto em todos os cantos das cidades. Só que essa marca cultural gera um enorme problema ambiental: cerca de 120 toneladas diárias de resíduos na extração da polpa. Os sacos de caroços poluem calçadas e canais e ainda não há uma solução em funcionamento para sua destinação, apesar de haverem muitos estudos que certificam a possibilidade de uso comercial destes resíduos. Enquanto nenhuma empresa se habilita a utilizar os caroços de açaí, eles seguem sendo mais um risco para a população.

Ao dobrar em sua moto a esquina da passagem Mirandinha para a rua do canal Água Cristal, no bairro do Barreiro, o autônomo Carlos Alberto, de 48 anos, perdeu a direção graças à enorme quantidade de caroços de açaí espalhadas pela rua. “Eu não vinha em velocidade, por isso não foi um acidente pior, mas machuquei o ombro e tive danos materiais. Quem arcou com o prejuízo fui eu mesmo, pois quem poderia ser responsabilizado?”, questionou. “É muito comum ver senhoras idosas escorregando nos caroços. Muita gente se machuca mesmo. Acidentes com motos e até carros também são muito comuns neste cruzamento, inclusive com óbitos”, relatou a dona de casa Raimunda Fonseca, que mora de frente para um dos maiores pontos de despejo dos resíduos.

A vendedora Josy Martins, de 32 anos, confirma os perigos que os caroços espalhados pelo chão representam e ainda observa o dano ambiental. “No Barreiro existem muitos batedores, e muitos carrinheiros vêm despejar os caroços no canal, sem perceber que isso prejudica a todos, pois acaba contribuindo para poluir e entupir o canal”, analisou. Todos os entrevistados apontam a falha na coleta dos resíduos por parte da Prefeitura de Belém, apesar de reconhecerem que o subproduto é depositado ali pela própria população. “Quando a caçamba passa e recolhe os entulhos, sempre deixa os caroços espalhados na rua. Acho que a limpeza poderia ser mais rigorosa”, opinou Carlos.

Raimundo ressalta a pouca frequência da limpeza. “Os caroços passam dias aí. O sol resseca e eles soltam muita poeira. Estou com problemas alérgicos graças a essa quantidade de entulho que as pessoas jogam ali”, reclamou. O problema não é exclusivo do Barreiro. É possível encontrar sacas de caroços de açaí nas calçadas de toda a periferia de Belém, local em que os pequenos batedores proliferam, como é o caso de Joaquim Oliveira, de 67 anos, que tem um ponto de venda na travessa Lomas Valentinas, onde trabalha no ofício há 40 anos.

“Houve um tempo em que algumas empresas se interessaram e faziam a coleta dos resíduos para transformá-los em ração para porcos e aves. Minha mãe, que é do interior, sempre disse que o caroço do açaí pode ser muito nutritivo para os bichos”, relatou. Ele admite, porém, não zelar pela destinação dos caroços. “Na segunda-feira, estava com 18 sacas acumuladas na porta de casa. Um rapaz com um carrinho passou e perguntou se eu queria que ele levasse. Paguei R$ 20 e ele desapareceu com todas. Talvez tenha jogado no canal, não sei, mas se a prefeitura fosse mais eficiente na limpeza, não precisaríamos disso”, justificou.

O diretor do Departamento de Resíduos Sólidos (DRES) da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), Janary Pinheiro, reconhece que a destinação dada aos resíduos de açaí é um grande problema. “No período de safra, são cerca de 120 toneladas de caroços produzidos por dia. Fora da safra, esse número cai para 80 toneladas/dia”, explicou. Não há neste momento um serviço de coleta voltado para este tipo de resíduo, já que a Lei de Resíduos Sólidos determina que a responsabilidade pela destinação dos caroços seja dos próprios batedores. A Sesan pretende conscientizar os trabalhadores do setor sobre esse descarte e busca parcerias de empresas que se interessem no reaproveitamento dos caroços.