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Próxima da aposentadoria, Fofão pode virar técnica

A apenas dois dias da despedida oficial como atleta em solo brasileiro, levantadora do Rexona-Ades, de 45 anos, afirma estar aberta a novos desafios


Por: Lance!Net Em 24 de abril, 2015 - 07h07 - Vôlei

Foto: Cleber Mendes/LANCE!Press

Os fãs do vôlei brasileiro estão a apenas dois dias de presenciar o adeus das quadras do país de uma das figuras mais vitoriosas do esporte nacional: Helia Rogério de Souza Pinto. Ou apenas Fofão.

Aos 45 anos, a levantadora conta os minutos para a decisão da Superliga Feminina, no domingo, às 10h15, contra o Molico/Osasco, na HSBC Arena, no Rio de Janeiro. Ela busca o tetracampeonato e o terceiro título seguido pelo time.

Depois, jogará somente o Mundial de Clubes, em maio, em Zurique, na Suíça. Apesar da plena forma física, não há quem a convença a repensar a aposentadoria.

Mas isso não significa um afastamento definitivo das quadras. O técnico Bernardinho tem a intenção de manter a jogadora ligada à equipe carioca, que tenta conquistar o décimo título da Superliga. Já José Roberto Guimarães quer contar com a veterana na comissão técnica da Seleção, que pode faturar o tri nos Jogos Rio-2016.

Recordista em participações olímpicas no Brasil, Fofão está empatada com Formiga, do futebol, e Jaqueline Mourão, do ciclismo, com cinco Jogos no currículo (ela marcou presença no evento de Barcelona-1992 até Pequim-2008).

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, Fofão falou sobre o futuro e relembrou momentos marcantes da carreira. Até mesmo um dos maiores “perrengues” que já enfrentou.

LANCE!: Esta é a sua terceira temporada no Rexona-Ades. O período marcou a contagem regressiva para o fim da carreira. O que mudou na Fofão no período?
Fofão: Acho que nesta temporada eu estou mais descontraída e relaxada. Estou rindo mais nos treinamentos.

L!: Como tem sido esta semana em que você fará a despedida oficial das quadras no Brasil?
F: É um momento único e especial. Tem sido uma semana de muita expectativa. A gente fica se preparando para a final, enquanto a ansiedade aumenta. Mas estou feliz, porque o time inteiro está bem, e estamos conseguindo fazer um bom trabalho. Faz diferença ir para a decisão com as 12 jogadoras inteiras.

L!: A temporada atual tem sido melhor do que a anterior no que diz respeito à preparação física e ao cuidado com a sua panturrilha esquerda, que você lesionou no ano passado?
F: Não houve mudanças na minha preparação. A parte boa foi que consegui não me machucar. Agora, já estou mais vacinada. Quando percebo que vou sentir algo, já me seguro. Tenho que ter cuidado para não parar no meio do percurso. Tenho administrado melhor o aspecto físico nesta temporada. Praticamente não sinto mais dores.

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L!: Como recordista de participações em Olimpíadas, sente que você é um ídolo e uma referência para as mais novas?
Sinto que sou um ídolo porque passei por várias gerações e, agora, sou acompanhada por uma geração mais nova. Por mais que a gente não queira, acaba sendo uma referência em quadra. Fico feliz e acho bom ser uma figura positiva para o voleibol.

L!: Aos 45 anos, é possível aprender como atleta ou é só colocar em prática o que sabe? O que aprendeu nesta temporada?
F: Ensinou que, quanto mais experiente, mais tranquila você fica. Aprender a gente sempre tem o que aprender. Quem trabalha em alto nível nunca pode dizer que já sabe tudo. Até mesmo com uma garota mais nova eu aprendo a fazer coisas diferentes. O que sabemos é bom, mas é preciso dar abertura para o que é novo.

L!: O Bernardinho já conversou com você sobre como será seu papel no time ano que vem? Você fará parte da comissão técnica?
F: Não (risos). Aqui é uma escola do mais alto nível possível. Se, de repente, eu tiver intenção de fazer algo como o que eles fazem, aqui (no Rexona) seria o melhor lugar para eu aprender. Mas fazer parte da comissão (na temporada que vem) seria demais.

L!: Pensa em fazer curso de técnico e seguir por este caminho?
F: Tenho vontade de fazer bastante coisa. Não vou falar que não, porque a vida vai montando caminhos que, às vezes, nem sabemos que temos condições de seguir. Se um dia eu vier a ter esta oportunidade na vida, vou aproveitar. Tudo temos que provar em algum momento para ver em que levamos mais jeito. Se um dia eu for por este lado, não custa nada tentar.

L!: Vai conseguir sentir saudade das quadras depois que parar?

F: No começo devo sentir um pouco de saudade. Mas quando você já passou por tanta coisa, fica só a lembrança. E fica a saudade das pessoas. Isto será o mais importante.

L!: Tem uma história curiosa sobre a sua festa de casamento, em 2004. É verdade que contou ao seu marido sobre o contrato com o Perugia na festa? Como foi?
F: Foi verdade (risos). Estava negociando com o italianos e, no mesmo ano, casaria. Meu marido não sabia que eu estava fazendo aquilo. No dia da festa, já tinha acabado de assinar o contrato. Convidei os dirigentes para o meu casamento, eles aceitaram e mudaram a passagem. Na festa, apresentei os caras ao meu marido. Depois que ele falou o 'sim', contei que tinha fechado com o time.

L!: Pela décima vez, Rexona e Molico se enfrentam em uma decisão. Isto é bom pela rivalidade ou ruim por uma certa previsibilidade?
F: São os dois times que trabalharam melhor e chegaram à final. Se estão lá, é por competência da comissão, pela capacidade das jogadoras. Para a gente, a motivação é grande por ser um clássico. Acho que é sempre mais animado um clássico como este.

L!: Mas o que explica a dificuldade de outros fazerem frente?
F: Muitos têm investido, mas a continuidade destas duas equipes faz a diferença nos momentos decisivos, como em uma semifinal, por exemplo. As pessoas têm que fortalecer os times, mas também precisam dar continuidade. Não esperar que no primeiro ano tenham resultados, mas que em dois, três anos possam chegar aonde nós estamos chegando.

L!: Consegue eleger quais foram os três momentos mais marcantes de toda a sua carreira?
F: A Olimpíada de Pequim, por ter sido o primeiro título do Brasil nos Jogos Olímpicos, a minha primeira conquista nos Jogos Pan-Americanos (em Winnipeg, em 1999), porque foi minha primeira campanha como titular na Seleção, e, depois, pela Unilever, quando perdíamos a final da Superliga (para o Osasco, na edição 2011/2012) por 2 sets a 0 e viramos.

L!: Depois da Superliga você jogará o Mundial, na Suíça. Fale um pouco sobre o nível do evento e o que espera do Rexona para tentar o título inédito.
F: Vai ser um Mundial muito forte. Algumas equipes eu acompanho, e é sempre complicado. Estes times reúnem muitas boas jogadoras, que estão acostumadas com decisões. Teremos que lutar muito para conseguir vencer. Mas é um torneio forte, que todas as atletas gostam de jogar. Nenhuma equipe será fácil.

L!: Esta será sua última viagem internacional como jogadora. Lembra qual foi a primeira?
F: Não tenho certeza, mas acho que foi a viagem para os Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991.

L!: Qual foi o maior perrengue que já enfrentou nestas viagens?
F: Quando estávamos em Hong Kong para jogar um Grand Prix, o avião quase caiu. O time inteiro gritando, todo mundo chorando. Foi a primeira vez dentre tantas viagens que realmente achei que o avião iria cair e que iríamos morrer. Nunca tinha passado por nada igual. Deve ter sido em 1995, na véspera da Olimpíada. Lembro que tinha Virna, Fernanda (Venturini) e Márcia Fu, que gritava muito e deixava a gente ainda mais nervosa do que já estava (risos).

L!: E qual foi o voo mais animado?
F: A volta de Pequim, depois do ouro. Ali, ninguém conseguia dormir. A gente foi balançando desde a China até o Rio de Janeiro. Fizemos guerra de travesseiro, teve até bronca dos comissários. Foi o mais animado.

QUEM É ELA

Nome
Helia Rogério de Souza Pinto

Nascimento
10/03/1970, em São Paulo (SP)

Altura/peso
1,72m/62kg

Principais conquistas
Campeã olímpica em Pequim-2008; bronze em Sydney-2000 e Atlanta-1999; campeã pan-americana em Winnipeg (1999); hexa do Grand Prix (1994, 1996, 1998, 2004, 2006 e 2008); tri da Superliga (91/92 - Colgate/São Caetano, 01/02 - MRV/Minas, 12/13 e 13/14 - Unilever).