Propostas de book rosa partem de dentro das agências

Modelo há 12 anos, Guisela Rhein afirma nunca ter recebido convites, mas diz que existe


Por: Marie Claire Em 19 de junho, 2015 - 17h05 - Moda

O book rosa, que antes parecia um assunto restrito ao submundo da moda, virou tema central de novela. Assim que “Verdades Secretas” estreou, toda atenção se voltou ao tal catálogo de acompanhantes para programas supostamente adotado por algumas agências de modelos.

Na trama, a new face Angel, interpretada por Camila Queiroz, logo que se torna a mais nova agenciada da Fanny Models, é convencida a aceitar também trabalhos como acompanhante de executivos poderosos para faturar mais.

Eli Hadid, dono da agência Mega Model Brasil, está há 20 anos no mercado da moda e garante que situações como essa existem só na ficção. “Eu não conheço nenhuma modelo que já disse ter recebido convite. E qualquer coisa do tipo precisa ser denunciada. Se a gente souber que alguma modelo da Mega faz esse tipo de coisa, ela vai embora na hora”, disse à Marie Claire. E acrescentou: “É impossível um convite desse partir de dentro da agência.”

Já a top Guisela Rhein, que trabalha há 12 anos na área e reúne em seu portfólio inúmeros desfiles para diversas marcas internacionais, conta que nunca passou por uma experiência como essa, mas sabe que acontece.

“Existem agências que não têm reputação nenhuma, que colocam várias modelos em situações como as mostradas na novela. Mas são raros os casos”, disse. “Aqui no Brasil, não vejo muito. Onde mais vi foi em Milão, que tem um mercado mais comercial. Também acho que varia de menina para menina. Em todos os meios as pessoas podem se corromper.”

Ao contrário do empresário, a top acredita que as propostas sejam feitas dentro do ambiente corporativo. “Eu acho que começa, sim, na agência. Se a menina quer seprostituir, ela vai procurar outro lugar. A maioria das ofertas partem dosagenciadores e donos”, acrescentou.

Segundo ela, o mesmo acontece em relação aos transtornos alimentares – anorexia, bulimia. “São os agentes que mandam essas meninas pararem de comer, até por eles não terem uma alimentação saudável e serem um pouco perdidos em relação a isso.”

MERCADO DE MODA x MERCADO DE EVENTOS
Apesar de a agência fictícia trabalhar tanto com desfiles, quanto com recepção de eventos, Eli afirma que “com essas duas vertentes juntas ninguém lida”.  “Por isso, acho que essas meninas [de agências que oferecem serviços para eventos] têm que ter cuidado.”

Para emplacar no mercado de moda e, quem sabe um dia, alcançar o sucesso deGisele Bündchen, Alessandra Ambrósio, Isabelli Fontana e Izabel Goulart é preciso ter talento, atender ao biotipo exigido e trabalhar muito, de acordo com o empresário.

“É um absurdo alguém pensar que vai chegar em algum lugar desse sem serralando. Tem muita gente por aí dizendo que é modelo, mas não é”, reforça.

CONSUMO DE DROGAS
Na trama, a personagem Larissa, interpretada por Grazi Massafera, vai sucumbir também às drogas, um assunto recorrente quando se trata do lado “sombrio” da moda. “Sei de várias meninas que se perderam, que pararam de modelar por terem entrado em um universo bem maléfico e prejudicial”, relata Guisela Rhein. “Pelo fato de eu não usar, não atraio gente assim, mas existe, sim.”

Autora de “Mundo Fashion – Modelos e Bastidores”, a psicóloga Miriam Tawil ouviu diversos profissionais da carreira. Entre os diversos conselhos dados para as iniciantes, o alerta para que se tome cuidado com a noite chama atenção. “As modelos são muito vulneráveis a propostas perigosas e a traficantes. Não vá atrás de pessoas que você não conhece e não aceite o que lhe oferecem”, reforçam.

Já Eli é enfático ao negar a presença de entorpecentes nesse ambiente. “Para alguém participar do mercado de moda, não precisa chegar perto de droga. Nunca vi droga.É tudo mentira, folclore”, diz. “Com relação à imaginação das pessoas, a gente não pode fazer nada. Agora, a realidade é que o ambiente dentro de uma agência de modelo é o mais tranquilo possível.”

O empresário acrescenta que, a fim de evitar qualquer situação do tipo, suas agenciadas são proibidas de sair para noitadas. “Se a gente encontrar uma modelo na balada, ela vai embora.”

REFORÇANDO ESTEREÓTIPOS?
Ambos os profissionais rejeitam a tese de que a novela possa reforçar estereótipos. “É um mercado que está forte, vai muito bem e gera curiosidade. De certa forma é até uma maneira de dizer que o mercado deu certo”, comemora Eli.

Guisela acredita que, de alguma forma, a repercussão de “Verdades Secretas” possa gerar um certo medo em quem pretende começar uma carreira de modelo. “Por outro lado, é positivo para que as meninas e seus pais tenham consciência de que isso [book rosa, drogas, transtorno alimentar] existe e que é preciso se cuidar, ser madura.”

“Eu não consigo entender que uma menina de 16 anos vai a um hotel encontrar com um executivo e ninguém faz nada. Tem que prender um cara desses. Se a gente aceitar que é ficção, está tudo bem”, reitera o empresário.