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Planalto avalia que relação com Câmara deve se estabilizar

Assessores de Temer dizem confiar em diálogo com líderes partidários


Por: O Globo Em 13 de setembro, 2016 - 08h08 - Política

Mantendo a estratégia de tentar se descolar do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o Palácio do Planalto minimizou na segunda-feira o resultado da sessão que votaria a cassação do mandato do peemedebista. Cunha teve mandato cassado com 450 votos a favor, 10 contrários e 9 abstenções e ficará inelegível até 2027. Para interlocutores do presidente Michel Temer, a rotina do governo pouco irá se alterar a partir da situação de Cunha.

A expectativa é que, se houver mudança, será no sentido de se estabelecer uma relação mais serena com a Câmara, algo que já vinha sendo construído desde o afastamento de Cunha pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O ex-presidente da Câmara foi afastado do cargo por determinação da Corte no início de maio, pouco antes de Temer assumir a Presidência da República de forma interina. Quando começou a governar, Temer passou a lidar diretamente com os líderes dos partidos aliados, inclusive do chamado centrão, cuja principal liderança era Cunha, antes da decisão do Supremo.

Nos primeiros momentos após ser afastado, Cunha ainda mantinha uma extensa influência sobre setores da Câmara. Porém, desde que renunciou à presidência da Casa, no início de julho, esse poder foi minguando, já que a manutenção de seu mandato foi se tornando cada vez menos provável.

Para o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, a saída definitiva de Cunha da Câmara não deve influenciar a relação do Planalto com o Congresso.

— O que tem a saída dele do ponto de vista da articulação política? Ele está afastado e não influi em nada na pauta do Congresso. Há quatro meses não fazemos interlocução com ele em relação à pauta da Câmara. Não muda nada. O governo continua dialogando com todos os deputados, como sempre — disse ao GLOBO.

RELAÇÃO COM PARTIDOS

Sobre a possibilidade de o centrão se desintegrar, na ausência definitiva de Cunha e de uma nova liderança que traga coesão ao grupo, o ministro reafirmou que a relação do governo se dá com os líderes dos partidos.

— Nunca tratei com o centrão, um termo que foi inventado. Trato com os líderes partidários e políticos — afirmou.

Para caciques do PMDB, a tendência é que a relação com o grupo também melhore. O jogo comandado por Cunha, de “turbinar” o centrão para fazer um contraponto ao PMDB, perdeu fôlego; o diálogo do governo com esses deputados, inclusive com atendimento a pedidos de cargos e emendas, deve contribuir para que o apoio ao governo se mantenha estável no Congresso, segundo esta avaliação.

— Os deputados do centrão continuarão unidos, porque convivem há muito tempo, mas não há hoje uma liderança que aglutine esse grupo como Eduardo Cunha fazia. Ele potencializava muito a rivalidade com o PMDB, porque turbinava o centrão com cargos e espaços na Câmara. Mas, o centrão está muito bem atendido no governo Temer, então acredito que não darão trabalho para governar — analisa um aliado do presidente.

TEMER: SEM CONSTRANGIMENTO

Outros auxiliares de Temer apostam que a tendência é se estabelecer maior serenidade na Câmara após a conclusão desse capítulo. Alguns admitem que há possibilidade de Cunha causar constrangimentos ao governo decidir atacar, em retaliação à sua cassação. Mas o discurso é que não há nada a temer e, por este motivo, o governo teria se mantido distante do processo de cassação de Cunha.

— A ausência dele da Câmara já tem algum tempo e o ambiente, sem ele na presidência, desestressou. Desde que ele deixou a Casa, houve certa normalidade para o governo. Se o governo tivesse temor de alguma retaliação, estaria tomando alguma providência. Não toma nenhuma providência porque não tem nenhum temor — afirma um interlocutor de Temer.

Em entrevista ao GLOBO publicada no último domingo, o presidente Temer afirmou que não tem sido procurado por Cunha, mas que, se isso ocorresse, não haveria nenhum inconveniente em falar com ele. Assim como seus principais auxiliares, o presidente disse que uma eventual delação de Cunha não geraria constrangimentos.