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Personagens do 7x1 na Copa tentam recuperar prestígio

Cinco jogadores e dois treinadores daquele jogo fatídico contra a Alemanha ainda vivem consequências do drama


Por: O Globo Em 05 de julho, 2015 - 09h09 - Futebol

Candidatos a heróis saem de cena como vilões. No rastilho do vexame diante da Alemanha, sete brasileiros foram considerados pelo imaginário nacional inábeis para o futuro da seleção. Ao contrário de outros Mundiais, quando um jogador era considerado culpado, dessa vez a geração de atletas dita perdida tenta reconstruir a vida a partir dos escombros restantes após a blitzkrieg alemã. Em comum, o destino longe da seleção e o drama para recuperar algo além da vaga: o prestígio.

O exílio compulsório reuniu um grupo com o qual o brasileiro estava habituado a conviver desde a conquista da Copa das Confederações, em 2013. Apesar de manterem a expectativa remota da volta, os jogadores não dizem isso abertamente, reticentes devido ao modo como ocorreu o banimento. Dante e Hulk eram praticamente desconhecidos e declaravam que seriam célebres no Brasil. Conheceram o pior lado da fama. O zagueiro entrou no lugar de Thiago Silva na fatídica semifinal. Sem força, Hulk saiu no intervalo sem marcar um gol na Copa. Fred praticamente não tocou na bola, enquanto Júlio César a viu balançar as redes sete vezes. A Bernard, coube a ingrata missão de substituir Neymar por decisão de Felipão, que contrariou o conselho de observadores.

Parreira lembra ter concordado com a escalação de Bernard, apesar de a decisão final ter sido de Felipão. Dos sete, o ex-coordenador é o único a assumir a condição de aposentado. Quer continuar distante para cuidar dos cinco netos e da vida. De um barco no meio do mar da Costa Verde, em Angra dos Reis, ele atende ao telefone, diz preferir lançar a boia de salvação para os renegados do que aprofundar as dimensões do naufrágio.

— Para mim, não há volta. Para os outros, que bom que não há “o” culpado. Pode ser positivo. Quando só um sai marcado, é difícil. Todo jogador quer vestir a camisa da seleção. Veja o Hulk: teve chance com Dunga, depois não foi mais. Com o Fred, eu falo. Soube se reerguer — disse Parreira.

Sempre ao lado de Felipão por quase dois anos, Parreira pouco vê o treinador. Do fracasso no Grêmio restou um mercado fechado no Brasil e a chance de fazer um negócio da China. Treina o Guangzhou Evergrande. Ganha muito dinheiro e aproveita prestígio internacional que não tem mais no Brasil. O auxiliar Flávio Murtosa foi junto.

Do mesmo lado do campo contra a Alemanha, Bernard e Fred vivem em mundos opostos hoje. Artilheiro do último Brasileiro, o capitão do Fluminense foi acolhido pelo clube, pela torcida e seguiu a vida no calor carioca. Prefere o silêncio quando o assunto é seleção. Bernard sofre no frio de Donetsk, capital da Ucrânia, onde enfrenta problemas no Shakhtar, do romeno linha-dura Mircea Lucescu. O treinador tem dito que Bernard “só chora” e está no time pelo dinheiro. O jogador tenta voltar ao Brasil, onde teria sossego e mais vitrine. Ganha R$ 900 mil: não há quem pague.

— Não pode se abater, porque é novo ainda. Eu não me entregaria — declarou Parreira.

Zico e Lazaronni creem na redenção

Jogadores da seleção akemã festejam um dos sete gols sobre a seleção brasileira na semifinal da Copa do Mundo de 2014, no Mineirão (Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo)

Em Portugal, Júlio César foi campeão com o Benfica. Deixou de lado a anunciada aposentadoria da seleção e passou a manifestar desejo de voltar ao gol que tem Jéfferson como titular. Com 35 anos, vê o tempo escorrer pelas suas mãos...

Dante também foi campeão, mas abriu brechas para falhas na defesa do Bayern e críticas sobre suas atuações. Hulk segue no Zenit, da Rússia. Teve uma chance com Dunga. Sofreu lesão. Foi cortado. Entrou em campo pelo Zenit logo depois de a seleção ter jogado. Dunga pôs Hulk de “castigo”.

— Sempre procuramos culpados. Isso aconteceu comigo em 1986, com o Cerezo, em 1982, e com o Barbosa, em 1950. Dessa vez, foi um conjunto. E eles ficaram marcados naquele jogo. Todos podem voltar, se fizerem seu trabalho direito, como o Fred tem feito — disse Zico, execrado no México após perder o pênalti contra a França.

A três dias do primeiro aniversário do 7 a 1, a CBF decidiu se mexer e anunciou a criação de um conselho de ex-técnicos. Nas últimas sete Copas, só cinco treinadores: Felipão (2002 e 2014), Parreira (1994 e 2006), Zagallo (1998), Dunga (2010) e Sebastião Lazaroni (1990). Em 25 anos, o Brasil teve cinco comandantes em Mundiais.

— Não é para apontar o dedo. Temos que estabelecer metas e traçar uma campanha de resgate do prestígio da escola do futebol brasileiro, sem debate vago. Assim, esses mesmos relegados podem ter outra chance, se merecerem. O próprio Dunga está aí para provar — declarou Lazaroni.