Paysandu completa 100 anos de história e conquistas

Desde a sua fundação, o Bicolor paraense é o clube mais vencedor do futebol do Norte do país


Por: Redação ORM News Em 02 de fevereiro, 2014 - 07h07 - Futebol

'Vou fundar um clube para vencer o Grupo do Remo', disse o jogador Hugo Manoel de Abreu Leão, em dezembro de 1913, quando ficou insatisfeito com o resultado final do Campeonato Paraense daquele ano, vencido pelo Remo.

Jogador do Norte Club, popularmente conhecido como Time Negra, Hugo Leão chegou a ser convidado a jogar pelo Grupo do Remo, no entanto, preferiu organizar um novo clube com espírito vencedor, para se tornar o mais vitoriosos do estado do Pará.

Foto: Jornal Estado do Pará 02/02/1914Foi então que em 2 de fevereiro de 1914, na rua dos Pariquis, número 22, foi fundado o Paysandu Foot-Ball Club - o nome Paysandu foi escolhido para homenagear a 'Tomada de Paysandu', quando tropas e esquadras brasileiras ajudaram o governo uruguaio a estabelecer a ordem política na cidade de Paysandú, no Uruguai. Na reunião que consolidou a criação do novo clube, 42 interessados estiveram na residência de Abelardo Conduru. No mesmo dia, a assembleia escolheu Deodoro de Mendonça, Eurico Amanajás e Arnaldo Moraes como presidente, vice-presidente e 1ª secretário, respectivamente, e também como responsáveis para redigir o primeiro estatuto do clube.

No dia 10 de fevereiro aconteceu a segunda reunião, quando definiram a primeira diretoria do Paysandu e também o início da discussão sobre como deveria ser o uniforme oficial do clube. Hugo Leão sugeriu que fosse uma camisa azul e branca em listras verticais, o escudo do clube a altura do peito e calção branco. Mário Bayma de Morais propôs que o uniforme fosse totalmente branco. Devido a indecisão, o assunto foi suspenso e retomado na terceira reunião, marcada para o dia 19 daquele mês.

Logo no início da terceira assembleia, Mário Bayma de Moraes retirou sua proposta de uniforme e pediu que fosse considerada apenas a sugestão de Hugo Leão. Assim, por ser a única proposta válida em pauta, ficou estabelecido em estatuo que o uniforme listrado em azul e branco com calção branco seriam as cores do Paysandu.

Porém, durante esta terceira reunião, surgiu em pauta a mudança do nome do clube. Com o sufixo Foot-Ball Club, alguns sócios e beneméritos entenderam que a recente agremiação teria o seu nome restritamente ligado ao futebol, esquecendo das outras modalidades esportivas, como o remo - esporte bastante disputado pelo clube no Pará na época -, por exemplo, e sugeriram que o sufixo fosse Sport Club. Então, por maioria dos votos, foi aprovado que a partir de 19 de fevereiro de 1914 a equipe alviazul seria chamada de Paysandu Sport Club.

Depois do dia 2 de fevereiro de 1914, outra data marcante para o Paysandu foi o dia 14 de julho de 1914, dia do primeiro jogo oficial da equipe no Campeonato Paraense de Futebol. Logo na sua estreia, o Bicolor atropelou a equipe do Ipiranga por 14 x 3, com direito a gol de Hugo Leão, de calcanhar, em cobrança de pênalti.

Hoje, 100 anos depois, as aspirações de Hugo Leão em fundar um clube vencedor se concretizaram. Detentor de 11 títulos de Torneio Início do Pará, 45 títulos do Campeonato Paraense, campeão da Copa Norte, bi-campeão do Campeonato Brasileiro da Série B e Campeão da Copa dos Campeões, o Paysandu Sport Club é o clube mais vencedor da região Norte do país, além de ser o único time nortista a ter participado da Taça Libertadores da América - principal competição sul-americana de futebol.

Jogador do Paysandu nas décadas 1960 e 1970, o meia Beto lembra da força que o Papão tinha nos anos 60 e início dos 70. 'Conquistei tudo o que disputei. Sou campeão de 65, 66, 67, 69, 71 e 72, sendo que em 63 e 64 fui campeão pelo Paysandu na categoria júnior e em 64 na categoria aspirante. Levantei taças nas três categorias pelo Papão'.

Beto tem em suas recordações o Campeonato Paraense de 1971 como o mais emocionante em sua carreira. Na ocasião, o Paysandu enfrentou o Remo na final. Com Dico, Jorge Mendonça, Sirotheau, Rubilota e Alcindo, o time azulino jogava por um empate na prorrogação para garantir o título de 71. A partida estava marcada para a Curuzu. Só que com bastante garra e determinação, o Time de 'Suiço' - apelido ganho em 1915 - virou o jogo, conquistando o 27º título estadual, cinco a mais que o rival Remo. 

'Foi um dos jogos mais emocionantes que participei. O Remo tinha um time bom, com ex-jogadores do Paysandu, como o Rubilota. Pela melhor campanha durante o campeonato, eles foram para o jogo único, marcado para a Curuzu, com a vantagem de dois empates (jogo normal e na prorrogação), para levantar a taça. O Remo abriu 2 a 0 com o atacante Alcino, mas reagimos no segundo tempo e empatamos a partida com gols de Moreira e Bené, levando a decisão para a prorrogação. Fomos para cima do Remo, mas eles estavam bem sólidos na defesa. Mas faltando dois minutos para acabar a partida, o meia Moreira marcou e nos deu a vitória. Nossa torcida foi à loucura e o time do Remo teve que atravessar a Almirante Barroso uniformizados e sem o título', relembrou Beto. frisando que naquela época era comum os jogadores atravessarem a Almirante Barroso, de um estádio ao outro, de uniforme.

Vinte anos anos depois da conquista de Beto, o Paysandu chegou ao seu primeiro grande título de sua história. Com Pedrinho, Rogerinho, Mazinho, Oberdan, Cacaio, Dadinho e Joel Martins (técnico), o Papão da Curuzu fez um Campeonato Brasileiro da Série B de 1991 de forma irretocável, com direito a goleada sobre o arquirrival Remo por 3 a 0 na fase classificatória, e conquistou o título nacional ao vencer o Guarani-SP por 2 a 0, no Mangueirão.

Quando todos os apaixonados pelo Paysandu achavam que uma conquista semelhante a de 1991 fosse demorar para acontecer novamente - já que o clube demorou 77 anos para ser campeão nacional - a mudança de século levou novos ares ao Paysandu e elevou o clube a um patamar jamais imaginado pelo torcedor bicolor mais otimista e até mesmo pelo fundador Hugo Leão.

Os anos de 2001, 2002 e 2003 marcaram a vida de todos que acompanharam o Paysandu. Nestes três anos, o Papão conquistou dois títulos paraenses (2001 e 2002), o bicampeonato da Série B (2001), a Copa Norte (2002) e a Copa dos Campeões (2002), sendo que este último título credenciou o clube a participar da Taça Libertadores da América, em 2003.

Gino com a taça de campeão da Copa do Campeões (Foto: Marcos Michelin/Estado de Minas)

Presente nas duas conquistas bicolores na Série B (1991 e 2001) e nos títulos da Copa Norte e Copa dos Campeões (2002), Rogerinho, hoje auxiliar técnico no clube, se diz orgulhoso de ter feito parte das principais vitória do Papão. 'Pra mim é um satisfação muito grande ter participado destas quatro conquistas, as maiores conquistas do clube. Eu acho que com isso provamos que éramos atletas profissionais, porque em 1991 e depois de 10 anos eu voltei ao clube e fui bicampeão brasileiro em 2001 jogando e depois a Copa Norte e Copa dos Campeões'.

Para os jogadores que estão sendo formados pela base alviazul e também os que estão ou podem vir para o elenco profissional para vestir a camisa bicolor, Rogerinho dá, basicamente, uma receita para ser um atleta vencedor. 'Com profissionalismo e essa experiência (vivida), hoje a gente trabalha no clube procurando passar o que é mais importante no esporte. A gente passa que o atleta hoje tem que ser realmente um atleta exemplar em todas as suas vertentes: condicionamento físico, resistência velocidade e flexibilidade. Para que possa fazer de tudo para conseguir um bom desempenho para ajudar o clube e conseguir o êxito'.

Assista o depoimento de Rogerinho:

o principal torneio sul-americano, o Bicolor paraense entrou como azarão. Mas, logo na partida de estreia, o Paysandu fez o seu primeiro feito. Foi em Lima, no Peru, venceu o Sporting Cristal por 2 a 0 - gols de Robson (3' 2ºT) e Sandro (6' 2ºT) -, ganhando destaque internacional. Depois, o Papão fez mais cinco partidas pelo grupo 2, vencendo três e empatando outras duas - destaque para a goleada de 6 a 2 sobre o Cerro Porteño (PAR), no Paraguai-, terminando a fase classificatória em primeiro, com 11 pontos.

Foto: Daniel Garcia/AFPNa fase seguinte, oitavas de final, o Paysandu pegou o maior desafio de sua história, enfrentar o temido Boca Juniors (ARG), na La Bombonera, em Buenos Aires. Antes do confronto contra os argentinos, o retrospecto de brasileiros no La Bombonera não era dos melhores. Somente o Santos (1963), de Pelé, e o Cruzeiro (1994), de Ronaldo e Dida, tinham vencido o Boca lá. Só que, em 24 de abril de 2003, o Paysandu entrou mais uma vez para a história do futebol brasileiro, ao vencer o Boca Juniors por 1 a 0, gol de Iarley, aos 22 minutos do segundo tempo. Na partida de volta, em Belém, o time paraense tentou se garantir nas quartas de final, só que os argentinos - com Tevez e Schelotto - venceram o jogo por 4 a 2 e avançaram na competição. Mesmo com a eliminação, o Paysandu registrou a marca ter conquistado 70% dos pontos disputados, recorde para a competição.

Atual capitão do Paysandu e camisa 5 daquele time de 2003, Vânderson, de 34 anos, relembra o sonho que foram aqueles três anos de conquistas e a projeção nacional que teve em sua carreira. 'Cheguei ao Paysandu em 2000. Eu nunca imaginava chegar a tão longe como cheguei com o Paysandu. Disputar uma Libertadores, isso para mim foi uma honra, um orgulho para a família e um orgulho para o Pará'.Foto: Tarso Sarraf (O Liberal)

Hoje, Vânderson faz parte do projeto de restruturação do clube. Com o clube na terceira divisão do Brasileiro pela sétima vez, o volante pede para que os novos e velhos torcedores nunca deixem de apoiar o Paysandu, pois sem a sua fiel torcida o clube não conseguirá retomar as grandes conquistas. 'Tirando a minha família, o Paysandu vem logo em seguida. O amor que sinto pelo meu filho eu sinto pelo Payasndu. O que eu posso dizer para essa garotada nova que está aprendendo a amar o Paysandu, que tenham um pouco de paciência. O clube no momento não está numa posição boa como todo mundo esperava no centenário, mas este ano tenho certeza que vamos fazer de tudo para voltar à aquele Paysandu que era antes'.

Veja o que Vânderson disse ao ORM News: