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Estado do Pará tem uma rede de carne clandestina

Promotor acusa prefeitos de incentivar o abate ilegal de gado


Por: O Liberal Em 02 de abril, 2017 - 07h07 - Pará

O Pará tem um rebanho bovino de 20,1 milhões de cabeças e bubalino de 491 mil e 122 animais. O Estado é um dos principais produtores nacionais de carne bovina e de exportação de boi vivo. Em 2016, o Pará enviou 835.349 animais para Estados brasileiros e outros 167 mil para países como a Venezuela, Turquia, Angola e Iraque. As informações são da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), que atesta a boa qualidade e o bom conceito do produto na comunidade nacional. Contudo, ainda há um grande número de produtores ilegais que abastecem uma rede de fornecimento de carne de má qualidade, sobretudo no interior paraense, embora essa carne também chegue a Belém, procedente de uma prática criminosa que envolve do abate à comercialização. 

O promotor de Justiça Marco Aurélio Lima do Nascimento, que atua na defesa do consumidor, separa o joio do trigo. Ele diz que a produção e a comercialização da carne no Pará tem duas divisões distintas. Há as carnes registradas devidamente nos órgãos competentes, que são o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a própria Adepará, de boa qualidade e procedência, e a carne abatida nos matadouros clandestinos, que representam risco à saúde pública e graves danos ambientais, contaminando solos e rios. 

‘’O grande perigo é o abate clandestino, ele existe e em grande volume e a população consome essa carne também em larga escala, sobretudo no interior, mas ela chega em Belém, embora em menor quantidade. Nesses matadouros, desde o abate do gado, já com maus tratos do animal, a carne não tem avaliação de médicos veterinários e pode transmitir doenças graves à saúde humana, como a tuberculose, brucelose e toxoplasmose’’, afirmou o promotor. 

Questionado sobre a dificuldade para se dar um basta a uma prática antiga no Estado, Marco Aurélio Nascimento lamentou o fato de que, em alguns municípios, os próprios prefeitos incentivam a atividade clandestina. ‘’Há Prefeituras que têm leis prevendo a inspeção municipal, mas na realidade esse serviço não funciona, não atende em nada a legislação sanitária, que fica só no papel. Os matadouros não têm a mínima condição e sequer dispõem de um médico veterinário, profissional que julga o animal, sim, porque assim como os seres humanos, os animais podem estar doentes e precisam ser avaliados e isso não existe nesses locais’’, afirmou.

A médica veterinária Maria do Carmo Andion Farias integra a equipe da promotoria de Defesa do Consumidor, com ampla experiência em fiscalizações do setor pecuário paraense. Ela observou que o criador sabe quando o seu animal está doente, mas ele não quer perdê-lo. “O criador sabe, o vaqueiro sabe, o vaqueiro pode não saber qual é a doença, mas sabe quando o animal está doente. Por exemplo, um animal com tuberculose é magro, apático. Então, quando ele chega num matadouro oficial numa linha normal, com veterinário, ele não é abatido, é recusado. Mas o proprietário não quer perder aquele gado, aí leva no clandestino e o animal é abatido na hora. Já vimos uma pessoa cortando um nódulo sugestivo de patologia, dizendo que era gordura’’, recordou a veterinária.