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Pai de santo é morto com doze facadas

Em Ananindeua - Religioso é atacado por dois homens num bar situado no bairro Icuí-Guajará


Em 08 de agosto, 2016 - 06h06 - Polícia

O pai de santo José Mário Cavalcante da Silva, de 39 anos de idade, foi assassinado com 12 facadas, próximo à casa onde morava, situada à rua 22 de Abril, no Jardim Vitória, no bairro Icuí-Guajará, no município de Ananindeua, na Grande Belém. O crime aconteceu por volta das 11h30, quando a vítima estava em um bar. Dois homens atacaram o “Pai Mário”, como era mais conhecido, usando duas facas peixeiras de 25 centímetros, que foram abandonadas no local do crime. Pode ter sido um crime de ódio, motivado pelo fato da vítima ser negra, homossexual e sacerdote do Candomblé Ketu. 

O homicídio causou comoção entre a comunidade afroreligiosa, que suspeita de intolerância religiosa e homofobia. Várias pessoas que professam a mesma religião da vítima relataram à reportagem que, no ano passado, a casa de “Pai Mário” foi invadida e várias pessoas foram assaltadas quando era realizado um ritual. 

A mãe de José Mário, Antônia Cavalcante, disse não acreditar que o crime tenha sido motivado por intolerância religiosa. Ela culpou a falta de policiamento na área. “Meu filho não fazia mal para ninguém. Eu estava trabalhando quando ele me ligou, às 10 horas, para dizer que estava nesse bar. Quando foi depois já me ligaram para dizer que ele tinha sido morto. Já roubaram a casa do meu filho várias vezes. Quase toda semana eles entravam e levavam tudo. Só deixaram um armário que tem lá. Agora levaram a vida do meu filho”, desabafou a mãe.

Com medo de represálias, os moradores não quiseram dar muitas informações. Os que aceitaram falar, sem se identificar, afirmaram que Mário era muito conhecido na área e que existiam pessoas querendo expulsá-lo do local devido às suas manifestações religiosas. Outra versão é de que a vítima supostamente teria jurado de morte quem invadiu sua casa e que essas mesmas pessoas o teriam assassinado. “Deram muitas facadas nele. Foi maldade o que fizeram com ele. Não tinha nem como ele reagir”, afirmou uma moradora.

O perito Sandro Lemanski, do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPC), informou que a vítima foi atingida por 12 facadas, que atingiram, principalmente, o peito e o alto das costas. O cadáver apresentava também várias lesões nas mãos, indicando que a vítima tentou se defender das facadas.”Ele estaria no bar bebendo com os dois elementos (assassinos), não se sabe se estavam juntos. Uma faca foi encontrada sem cabo - deve ter quebrado na agressão, e a outra estava ao lado do corpo. A vítima estava nesse bar. Eles lutaram na via pública. A vítima caiu morta no cruzamento das ruas Manoel Amaral e Raimundo de Souza”, contou o perito. As facas foram recolhidas para análise pericial, que poderá apontar a autoria do crime. Logo após o levantamento dos peritos, o corpo foi removido para o Instituto Médico Legal (IML), onde será submetido a exame de necropsia.

As equipes da Divisão de Homicídios e da Seccional da Cidade Nova, da Polícia Civil, não tinham informações a dar sobre o caso, pois a primeira chegou ao local do crime após o corpo ser removido pelo IML, alegando que não haviam sido acionados pelo Centro Integrado de Operações (Ciop), enquanto a segunda não foi para lá. No boletim de ocorrência registrado pela irmã da vítima, na Seccional da Cidade Nova, ela afirma que tinha conhecimento que o irmão estava ameaçado por bandidos, mas não soube informar os nomes deles. A identidade dos assassinos ainda é desconhecida. Qualquer informação pode ser repassada à polícia, de forma anônima, pelo Disque Denúncia 181.

O conselheiro nacional de Igualdade Racial da recém-extinta Secretaria Especial de Igualdade Racial (Sepir), da Presidência da República, Arthur Leandro, que também é professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), explicou à reportagem que “há um desespero provocado pelo racismo contra as tradições de matriz africana. A bandidagem não tem o menor respeito pelas nossas tradições, somos identificados por eles, via fundamentalismo cristão, como adoradores de demônios.” Várias lideranças afroreligiosas postaram nas redes sociais declarações de pesar pelo assassinato de Pai Mário, considerado uma pessoa de bem, e ressaltaram o temor pelos crimes de ódio praticados contra afroreligiosos em várias partes do Brasil, incluindo a Região Metropolitana de Belém.

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