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Os subterrâneos da política

Isso demonstra a quantas anda o nível de transparência de nossos costumes políticos


Por: O Liberal Em 04 de abril, 2017 - 07h07 - Editorial

Quando instituiu-se a obrigatoriedade de compdrovação, por legendas partidárias e candidatos a cargos eletivos, dos recursos recebidos e gastos em campanhas eleitorais, os subterrâneos da política entraram em campo e instituíram o caixa dois, assim chamado o canal oculto por onde trafegariam recursos não contabilizados oficialmente e, portanto, imunes ao escrutínio da Justiça Eleitoral.

Daí por diante, todas as vezes em que foram criados mecanismos legais destinados a dificultar o uso de caixa dois, os mesmos subterrâneos da política adotaram atalhos, jeitinhos e artimanhas para vislumbrar as brechas das leis pelas quais os recursos contabilizados chegariam a seus destinos - sem qualquer problema.

A continuidade das investigações da Operação Lava Jato está demonstrando fartamente que controlar o caixa dois ainda é e sempre será o grande desafio dos órgãos de controle. Porque os subterrâneos da política estarão sempre ativos e jamais se renderão a obstáculos que a lei eventualmente opuser, com vistas a coibir essa prática  criminosa e, portanto, sujeita a reprimendas legais.

Não espanta, por isso, a revelação de que a Construtora Odebrecht doou a partidos políticos por meio de caixa dois cerca de R$ 40 milhões apenas nas eleições de 2014. A cifra é uma estimativa feita a partir do depoimento do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Júnior.

Em interrogatório no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o empresário foi bem explícito quanto à origem dos recursos: todos seriam provenientes do “Departamento de Operações Estruturadas” da Odebrecht, área da empresa responsável pelo pagamento de propinas.

O executivo disse que “todos os grandes partidos” receberam dinheiro legal e também por meio de caixa dois da Odebrecht e subsidiárias. O depoente informou que a empresa doou em 2014 um total de R$ 200 milhões. Essa cifra foi definida durante reunião entre Marcelo Odebrecht e executivos da companhia. Deste total, 60% saíram da construtora; de 20 % a 25% de empresas terceirizadas ligadas à Odebrecht; e de 15% a 20% (R$ de 30 milhões a R$ 40 milhões) por meio de caixa dois.

Desses R$ 40 milhões, disse o empresário, R$ 9 milhões foram para as campanhas de candidatos de vários candidatos que participaram não apenas de campanhas à Presidência da República, mas ao Congresso Nacional.

A distribuição de dinheiro ilegal, como facilmente se constata nas informações prestadas por delatores, foi ampla e democrática. Dificilmente algum partido poderá levantar o dedo e dizer que não bebeu na fonte do caixa dois, o que demonstra a quantas anda o nível de transparência de nossos costumes políticos.