Mais Acessadas

Os fermentos da vitória

Olhar para a frente é o que resta


Por: O Liberal Em 18 de novembro, 2016 - 08h08 - Editorial

Por que Donald Trump, com um discurso avesso ao politicamente correto, elegeu-se presidente dos Estados Unidos, contrariando as projeções de quase todas as pesquisas feitas até poucas horas antes do pleito?

Esse questionamento não para de ser feito por segmentos de toda natureza - alguns amparados em conceitos racionais, marcados pela sensatez, enquanto outros se subjugam a paixões ideológicas, radicais e desprovidas de maiores elementos que poderiam conferir-lhes alguma credibilidade.

Referir-se apenas ao “desejo de mudança” como o fator primordial que teria levado à vitória de Donald Trump parece vago demais. Essa expressão é uma espécie de guarda-chuva que resume argumentos nem tão consistentes para explicar reações populares de difícil leitura.

Não se pode insistir na generalidade imensa que esse conceito encerra, uma vez que o eleito para presidir a maior potência militar do planeta não foi um qualquer. O eleito foi Donald Trump, tido como um outsider da política, declaradamente um combatente contra o establishment da política americana e resistente a etiquetas políticas convencionais.

Poucos atentam, por exemplo, aos efeitos da globalização para a vitória do candidato republicano. Um deles é o próprio presidente Barack Obama. Em sua última visita oficial à Europa, ele defendeu que os líderes mundiais devem dar mais atenção ao medo das pessoas em relação à desigualdade e ao deslocamento econômico dentro do contexto da globalização.

Obama ressaltou que a importância desse debate foi uma das lições que aprendeu com a corrida eleitoral americana deste ano. “Quanto mais eficazes formos ao lidar com essas questões, menos esses medos podem se canalizar em abordagens contraproducentes, que podem colocar as pessoas contra as outras”, disse.

O presidente admitiu que a ascensão de Trump à Casa Branca reflete o desejo da população de “tentar algo” novo e o “temor das pessoas de que seus filhos não sejam tão bons”. Mas acrescentou que a vitória republicana não necessariamente é um reflexo de uma rejeição ao seu governo. Ele reconheceu o desejo de mudança, mas disse que “nunca se desculpará por dizer que o futuro do mundo será definido pelo que as pessoas têm em comum, e não pelo que separa as nações”.

“Não me sinto responsável pelo que diz ou faz o presidente eleito, mas sim que durante a transição eu lhe apresente minhas melhores ideias para levar o país à frente e falar de coisas sobre as quais acredito que o Partido Republicano se equivoca”, disse Obama.

Olhar para a frente é o que resta. Mas, sem dúvida, é preciso conhecer melhor o contexto passado, que viabilizou a vitória de Trump.