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O Liberal: sob o comando de nove editores-chefes

Profissionais são os responsáveis pela linha editorial de O LIBERAL


Por: O Liberal Em 07 de dezembro, 2016 - 08h08 - O Liberal 70 anos

Foto: Oswaldo Forte

Em seus 70 anos de história, cinco pessoas (ou representantes de suas famílias) puderam dizer, a propósito de O LIBERAL, “o meu jornal”. Na primeira fase, que foi de 1946 a 1966, os generais Moura Carvalho e Magalhães Barata e o engenheiro Ocyr Proença. Na segunda, de 1966 até 1986, o empresário e jornalista Romulo Maiorana. E a terceira, de 1986 até hoje, dona Lucidéa Maiorana e seus filhos, à frente o jornalista Romulo Maiorana Jr., que há mais de 30 anos administra a empresa e modernizou a gestão do jornal. Além deles, outra figura quase anônima também pode pronunciar a frase “o meu jornal”, mas num sentido diferente do usado pelos proprietários: o editor-chefe.

O editor-chefe é, na prática, quem manda no jornal - depois do dono, é claro! Sua função é decidir o que sai e o que não sai publicado. A ele cabe organizar o jornal da primeira à última página. Nada pode ser publicado sem que passe sob seus olhos. Bem diferente de uma estranha prática da política contemporânea brasileira, que permite que governantes aleguem nada saberem do que acontece a sua volta, o editor-chefe de um jornal precisa saber de tudo o que o leitor irá ler na edição do dia seguinte. “Além da atenção com as notícias publicadas, conto a colaboração de uma equipe dedicada”, elogia o editor-chefe de O LIBERAL, jornalista Lázaro Moraes, há quase seis anos na função mais importante do jornal.

O primeiro editor-chefe de O LIBERAL era um jornalista nascido em 1898 e morto em 1975, chamado Lindolfo Mesquita. Poeta e cronista, Mesquita chegou a dirigir uma revista literária, mas encontrou na política a forma segura de sobreviver. Elegeu-se deputado estadual, depois, foi feito ministro (hoje seria conselheiro) do Tribunal de Contas. O deputado Lindolfo Mesquita foi a escolha mais acertada para o momento. Por ser um jornal de natureza política, tudo que nele fosse publicado seria responsabilidade - como é até hoje - do editor-chefe. Como deputado, estava protegido pela capa da imunidade. “Nós agimos com extrema responsabilidade e compromisso profissional, porque respondemos juridicamente pelo o que o jornal publica. O editor-chefe é responsável por tudo que sai no jornal”, explica Moraes.

O poeta e cronista Lindolfo Mesquita foi substituído por outros editores-chefes “de plantão”, digamos assim, até que, no dia 15 de fevereiro de 1952, o nome do advogado e jornalista Hélio Mota Gueiros apareceu no expediente de O LIBERAL como editor-chefe. Ele já estava lá havia alguns anos, redigindo e editando textos, mas, a partir daquela data, assumiria a maior responsabilidade da empresa. Como os salários eram baixos, foi designado por Magalhães Barata para trabalhar em uma repartição estadual, onde receberia ordenado digno. O que O LIBERAL podia pagar não passava de uma simples gratificação. Um dia, o governador procurou por Hélio Gueiros no jornal e não o encontrou na redação. Assim que chegou ao prédio, ligou para o general - era assim que todos tratavam Magalhães Barata -, que, um tanto aborrecido, quis saber onde ele estava. O diálogo que Gueiros reproduziu, numa entrevista que me concedeu sobre a história de O LIBERAL, foi assim:

- Eu telefonei e o senhor não estava.

- Eu estava trabalhando, general. O senhor esqueceu que eu trabalho noutro lugar à tarde. De manhã, em O LIBERAL. À tarde, na repartição.

- Olhe, dr. Hélio, eu empreguei o senhor no Estado, mas é para o senhor trabalhar só no LIBERAL.

“Depois dessa, eu nunca mais voltei lá. Ficava o dia inteiro no jornal”, disse o jornalista Hélio Gueiros, que dirigiu O LIBERAL até a manhã de 14 de julho de 1965, quando o jornal foi vendido a Ocyr Proença. Hélio estava em sua mesa, quando entraram na sala o geólogo José Carlos Raimundo e Ocyr Proença. O primeiro era genro do general Moura Carvalho, que havia fundado O LIBERAL e passado para Magalhães Barata. O segundo, engenheiro. Como o jornal havia voltado para a família Moura Carvalho e enfrentava uma crise sem precedentes, a única solução encontrada era vender a empresa, que começava a corroer o patrimônio pessoal do general. Gueiros ficou tão furioso com a notícia, que levantou-se da cadeira e não deu nem até logo. A única reação que teve foi pedir à secretária e amiga Maria dos Anjos que reunisse tudo que lhe pertencia e mandasse deixar em sua casa. No dia 15 de julho, depois de 13 anos, o nome de Hélio Gueiros desapareceria do expediente do jornal. Em seu lugar, entraria o do professor Álvaro Paz do Nascimento.

Com Romulo Maiorana, o jornal avança e disputa o mercado com vigor

A tentativa de Ocyr Proença de salvar O LIBERAL durou apenas dez meses entre os anos de 1965 e 1966. Em maio de 1966, quando o jornal não conseguia uma tiragem maior do que cem exemplares, o jornalista Romulo Maiorana adquiriu uma empresa que, se fosse oferecida gratuitamente, não encontraria quem quisesse assumir as dívidas e nenhum futuro de um vespertino sem leitores. Com uma rara visão de futuro, comprou O LIBERAL e, dias depois, pediu uma audiência com o prefeito Stélio Maroja, para comunicar oficialmente que era o novo dono do jornal. No gabinete de Maroja, encontrou seu amigo Bernardino Santos - hoje colunista de O LIBERAL, na época, secretário particular do prefeito - e o também jornalista Adolfo Melo de Oliveira Filho, uma espécie de “faz-tudo” em “A Província do Pará”. Como sabia que só conseguiria enfrentar “A Folha do Norte” e “A Província do Pará” - os dois maiores jornais da cidade - se  O LIBERAL tivesse um editor-chefe respeitado no meio, descobriu, naquele momento, que o jornalista Eládio Malato, então diretor de “A Província” andava chateado com algumas coisas que aconteciam no matutino dos “Diários Associados”. Não foi difícil saber qual era o salário de Malato e, quando fez a proposta para que trocasse “A Província” pelo “O LIBERAL”, já chegou oferecendo o dobro. “Foi um escândalo no meio jornalístico. O LIBERAL era pequenino e ia pagar o dobro da ‘Província’. O Malato aceitou na hora. Foi aí que O LIBERAL começou a crescer”, lembra Bernardino Santos. 

Eládio Malato foi editor-chefe de O LIBERAL por muitos anos. Quando a TV Liberal surgiu, ele assumiu o comando da emissora e para a chefia de O LIBERAL foi chamada outra estrela do jornalismo paraense, que, naquela ocasião, dirigia “A Província do Pará”: Cláudio Augusto de Sá Leal. Conhecido pelo rigor e pela disciplina que impunha à redação, Leal - ou “doutor Leal”, como o jornalista Romulo Maiorana gostava que a equipe o tratasse, mas poucos  o chamavam assim - dirigia o jornal com mão de ferro. Não admitia erros, ficava furioso, quando outro jornal “furava” (em linguagem jornalística significa dizer que dava notícia na frente) O LIBERAL, tinha paixão pela notícia e, numa época em que não havia celular e internet, não fechava a edição antes de duas horas da manhã. 

Apesar do jeito aborrecido, era um homem que gostava de poesia e apreciava pintura. Fumava cinco carteiras de cigarro por dia e o único exercício físico que fazia era caminhar pela redação. Um dia, o coração não suportou e precisou parar. Foi substituído, interinamente, pela fiel escudeira, amiga de longos anos, que trouxera de “A Província”, a jornalista Ana Monteiro Diniz, que já atuava como sua substituta eventual. Com o editor-chefe afastado para longo tratamento, Ana Diniz assumiu a chefia. Pela primeira vez na história da imprensa no Pará, o nome de uma mulher constou no expediente de um jornal como editora-chefe. Dona de um texto brilhante, Ana era pesquisadora, ficcionista e poeta. Enxergava longe onde havia um fato jornalístico e tinha paciência de ensinar os segredos da profissão aos que começavam. Ao deixar O LIBERAL, dedicou-se à literatura e abandonou o jornalismo. Quando Cláudio Sá Leal pôde voltar, sua saúde passou a exigir cuidados especiais. Ele retornou em 1988, ano em que Ana Diniz criou e dirigiu o suplemento “Aqui, Belém”, que circulava às sextas-feiras, em O LIBERAL. O comando do jornal passou para o jornalista Ronald Junqueiro, que foi redator-chefe até 1992. Simpático, generoso, companheiro de toda Redação, Ronald era chamado de “chefinho”, porque chegou muito jovem a O LIBERAL e exerceu todas as funções no jornal. Era homem de confiança da família Maiorana e dirigiu o jornalismo da TV Liberal. Em 1992, com novos horizontes profissionais, Ronald - que se revelou um romancista primoroso - foi substituído pelo jornalista Walmir Botelho d´Oliveira, que havia começado a vida como diagramador. Atento ao mundo da notícia, Botelho cresceu. Tinha visão do jornal como um todo. Sabia  administrar conteúdo e forma com uma habilidade rara. Gostava de humanizar a leitura do jornal e valorizava sua equipe. Era um homem introspectivo, leitor voraz, de grande sensibilidade e com enorme poder de síntese. Sua intimide era com a palavra e com a notícia. As grandes mudanças visuais de O LIBERAL aconteceram sob seu comando. Quem pode privar de sua amizade, soube que se tratava de um ser humano raro.

Apaixonado pela leitura e desligado da própria saúde, Botelho teve a visão seriamente comprometida. Em junho de 2011, precisou ser afastado da chefia, para a qual jamais retornou. Para seu lugar foi convidado, em junho de 2011, o jornalista Lázaro Moraes, efetivado na função de redator-chefe em dezembro do mesmo ano. Funcionário de O LIBERAL há 28 anos, Lázaro é o primeiro jornalista a assumir a função portando diploma de profissional da área, formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade da Amazônia (Unama). Todos que o antecederam vieram de um tempo em que esse tipo de formação profissional não era exigida, porque não existia curso de Jornalismo. “Outros editores-chefes até possuíam graduação em outras áreas. Hoje, além de me dedicar quase que exclusivamente ao jornal, faço Mestrado em Comunicação na UFPA (Universidade Federal do Pará), mas o jornalismo é uma grande paixão, apesar de ter estudado também Filosofia. Todos sabem que a nossa atividade é bonita e muito cansativa, mas é o que nos dá prazer”, afirma. (JCP)