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O discurso e a recessão

Há crises e crises - está cada vez mais claro


Por: O Liberal Em 18 de janeiro, 2017 - 07h07 - Editorial

Há crises e crises - está cada vez mais claro.

Há crises que, vistas por quem está do lado de fora, desfrutando de ambientes econômicos em crescimento, são encaradas como oportunidades de investimento.

Mas há crises que, vistas por quem esta dentro dela, impõem sacrifícios de toda ordem a milhares de cidadãos e empresas que não veem saídas a curto prazo para que a economia volte a crescer.

Declarações do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deixam bem claro essa discrepância. E precisam ser encaradas dentro dos estritos limites de uma autoridade que, sob a imposição funcional de mostrar uma face favorável do País, precisa estar atenta para não adotar percepções que podem ser confundidas com um esforço inútil de vender por aí gato por lebre.

Meirelles se encontra em Davos, na Suíça, participando do Fórum Econômico Mundial. Sua assessoria de Imprensa encarregou-se de distribuir um áudio em que o ministro manifesta seu otimismo com a disposição de investidores, que estariam agora mais interessados em prospectar negócios no Brasil, apesar da recessão brutal que o País enfrenta.

“Existe mais disposição em investir no Brasil agora. [Os investidores] prestaram mais atenção em algumas questões básicas: primeiro que o Brasil já está crescendo nesse trimestre. Mesmo que a média do PIB de 2017 com 2016 seja baixa, mas o crescimento durante o ano, de dezembro de 2017 comparado com dezembro de 2016, é um crescimento grande de 2% e um crescimento ainda maior em 2018”, afirmou ele.

Meirelles afirmou que há muito interesse por parte dos empresários e dos investidores não só no ajuste fiscal, com a aprovação da PEC do teto de gastos, mas também sobre o processo de reestruturação da dívida dos Estados e sobre o envio ao Congresso Nacional da proposta de reforma da Previdência.

O ministro acrescentou que os investidores também ficaram “impressionados” com a longa lista de medidas microeconômicas que o governo anunciou no fim do ano passado com o objetivo de aumentar a produtividade das empresas, desburocratizar procedimentos e estimular o nível de atividade na economia brasileira e a geração de empregos.

“Tudo isso está sendo visto de forma favorável”, afirmou o ministro. “A receptividade está muito positiva. Um ambiente muito mais positivo até do que lá no Brasil”, disse. Ele acrescentou que isso é “compreensível”, já que os brasileiros estão vivenciando os efeitos de uma “recessão enorme” que, segundo ele, foi herdada pelo atual governo.

Sim. Os brasileiros estão enfrentando uma “recessão enorme”. Menos mal que o ministro tenha reconhecido isso, apesar da essência de seu discurso indicar que não.