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Montagner: a vida imita a arte


Por: O Liberal Em 18 de setembro, 2016 - 10h10 - Editorial

Como dizia Oscar Wilde, “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida...”. Essa frase veio à tona na última semana diante da fatídica morte do ator Domingos Montagner, 54 anos, protagonista da novela ‘Velho Chico”, da Rede Globo, que curiosamente interpetava um personagem chamado Santo dos Anjos.

A trajetória do ator, nas artes cênicas - tendo durante muitos anos interpretado palhaços e criado o seu próprio circo - nos mostra a profundidade com que havia, na sua personalidade, uma simbiose entre o ator e seu personagem.

Os colegas de trabalho do ator, ao comentarem sua morte, destacam a alegria, o convívio e a sua forma de se relacionar, como se Montagner encarnasse no seu dia a dia o personagem circense que carregou durante 49 anos, pois somente nesta idade ingressou no universo interestelar das novelas. Por outro lado, o “Velho Chico” e suas encantarias, enredo da trama de Benedito Ruy Barbosa, nos revela a cultura que reina em locais dominados pelas águas, pela mitologia que transcende à existência corpórea, repassada pela oralidade, de geração a geração, tal qual na própria Amazônia.

E chama ainda mais a atenção quando vida e morte, faces de uma mesma moeda, se entrelaçam nas teias submersas do velho São Francisco; do rio, que provê a vida como alimento para o corpo, mas também como viço para a alma, numa espécie de terra em transe, um portal para o outro lado. E nessa passagem, entre o real e o mito, entre o enredo, a novela, os personagens e a vida real dos atores, uma cena ganha duas versões: uma, a do homem, da preponderância de sua visão maniqueísta, egoísta, diante da vida, da negação da morte, como o mal; e a do próprio rio, que consigo leva seus mistérios e sobre os quais só podemos especular.

A cena a que nos referimos é a que Santo, personagem do ator, é levado pelo rio, mas salvo por uma tribo indígena - e com a intercessão do amor de Terê, interpretada por Camila Pitanga - volta à vida, renasce pelas mãos do próprio rio. A personagem de Camila Pitanga tem primeiramente um sonho, no qual ela o traz de volta à vida, o que se torna realidade na novela, tal qual o sonho sonhado.

Na segunda cena, da vida real, as águas do rio levam o ator/personagem - neste caso fundidos na mesma pessoa - e este não volta mais à vida. Nesta cena, a qual todos nós, seres humanos, estamos fadados a experimentar, resta apenas elocubrar sobre os mistérios da vida e da morte, ao que muitas pessoas referem como desígnio de Deus, ou simplesmente mistérios entre o céu e a terra que a nossa filosofia tenta em vão explicar.

Contudo, independentemente de valores, crença ou religião, a coincidência dos enredos chama a atenção, principalmente porque no dia em que o ator morreu, outra personagem da novela entra nas águas e pede ao rio para ser levada pela Gaiola da Morte (embarcação que leva os espíritos), uma cena que, obviamente, fora gravada anteriormente. Se o fato acontecido, mais uma vez, aguça curiosidades e nos leva à reflexão, é bom que dele tiremos lições. A primeira: que desconhecemos muito mais do que pensamos conhecer; e a segunda, de que a vida/morte pode não passar, sim, de uma cena, uma forma de ver o todo, um enredo muito maior de uma novela cujo autor guarda para si o final.