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Lixo espacial é encontrado em Curuçá, nordeste paraense

Grupo de pescadores recolhe artefato e leva para casa, com a ideia de fazer exposição


Por: Victor Furtado / O Liberal Em 20 de maio, 2015 - 11h33 - Pará

Um pedaço de lixo espacial caiu num mangue próximo à praia do Areoá, a mais ou menos uma hora do porto do Abade, no município de Curuçá, em área acessível somente por barco. Um grupo de amigos estava pescando quando o técnico de refrigeração Francisco Carlos Paixão da Silva, de 47 anos, encontrou a peça e vários fragmentos, numa clareira de mais de 50 metros. Ele e mais cinco pessoas resgataram o objeto e o levaram para a casa dele, no município, onde Francisco pretende transformar os destroços em uma divertida atração para uma cidade que só tem mais movimento durante o Carnaval.

O fragmento pertence a algum equipamento espacial da Índia, mas ainda não se sabe a que tipo de veículo pertencia. A estimativa é de que a queda tenha ocorrido há pelo menos um mês, devido ao estado de corrosão e pela ferrugem apresentada por algumas peças, em consequência principalmente da água salgada. No material existe uma suástica desenhada, junto a frases escritas com pincel, em francês e inglês, traduzidas como “Boa Sorte” e “Obrigado por tudo”. Várias tipos de numeração podem ser percebidos, mas se encontram ilegíveis e pouco explicam sobre a origem, função ou data de lançamento do equipamento.

O que parece ser um fragmento de algum objeto espacial virou atração entre os habitantes do porto do Abade. Foto: Tarso Sarraf/ O Liberal

Como a área tem alta incidência de relâmpagos e trovoadas, além do mangue macio, ninguém da comunidade de pescadores da área relatou ter ouvido o barulho da queda do pedaço de lixo espacial.

“Fui pro mato, no domingo, durante a pescaria, e vi a peça, bem dentro do mangue. Achei primeiro que fosse uma cobra. Depois fui ver de perto e foi quando pensei ser um navio ou avião. Chamei todo mundo e vimos que era uma peça de espaçonave, foguete, sei lá”, explicou Francisco. Os amigos se uniram na tarefa de carregar e levar o achado para a casa do técnico. “Vou fazer uma exposição ou museu. Vai ser legal”, disse ainda Francisco. Ele não se mostrou nem um pouco preocupado com qualquer risco de radiação ou prejuízo inesperado, em razão do total desconhecimento sobre a origem do equipamento que encontrou e decidiu guardar o material em sua casa mesmo. “O sal já matou qualquer coisa”, apostou.

Não é a primeira vez que um artefato diferente é encontrado em Curuçá, despertando a curiosidade da população. Segundo conta o historiador e presidente da Academia de Letras e Ciências do município, Paulo Henrique Ferreira, no final da década de 1960 uma bomba da Segunda Guerra Mundial foi encontrada. Sem conhecimento do que se tratava - ou pensando não haver mais riscos - pescadores a usavam perto do fogo. Até que um rapaz que precisava fazer uma fogueira provocou a explosão do artefato, causando a morte de toda a vegetação em volta e de pequenos insetos e animais, num raio de 150 metros.

“Queremos que seja reconhecido esse achado. Ele será da comunidade. Não queremos nada da prefeitura”, disse o historiador, que já organizava um evento para apresentar o artefato. “O mérito precisa ser de quem encontrou. Este pedaço faz parte da história contemporânea da cidade, registrada por nós e pela imprensa”, acrescentou. Na cidade, já não se falava em outra coisa, principalmente entre os pescadores que vivem na área do Abade.

Ainda no ano passado, um pedaço de lixo espacial de um lançador de foguetes da Agência Especial do Reino Unido (UK Space Agency) foi encontrado num mangue no município de Salinópolis. Em ambos os casos, as áreas ficam próximas da correnteza oceânica. Entretanto, afirmam os responsáveis pela descoberta, não havia como a maré levar o destroço, pois a área é de difícil acesso e o artefato estava preso na vegetação e na lama do mangue, apesar da clareira em volta.