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Lembranças de um craque

Quarentinha, um dos maiores jogadores da história do futebol paraense, carrega recorde de clássicos


Em 15 de junho, 2014 - 01h01 - Esporte

Com 18 anos defendendo o Paysandu, Paulo Benedito Santos Braga não lembra quantas vezes entrou em campo para encarar um clássico Re x Pa. “Foram muitos, todos sempre especiais”, diz. Aos 79 anos, Quarentinha é apontado até hoje como um dos maiores jogadores da história do futebol paraense.

Dentro da Curuzu, é uma unanimidade. Foi o maior de azul e branco. Com 100 anos do maior clássico do Norte do país, ninguém ainda chegou perto do recorde do meia bicolor, que enfrentou o maior rival em 135 oportunidades, 1955 a 1973. Em 2000, Quarentinha foi eleito pela imprensa local e ex-atletas como o jogador do século no Pará, o que nunca foi contestado.

Se neste ano a maioria dos torcedores reclamou de oito clássicos no estadual - mais dois pela Copa Verde -, Quarentinha esteve em campo nos dois estaduais que mais tiveram clássicos. Em 1956 foram 16. No ano seguinte, um a mais. Alguns feitos da história do ex-jogador são bem conhecidos, como o fato de ele ter sido recusado em uma peneira no Baenão. Foram quase 30 dias de testes até ser orientado a procurar outra carreira, não o futebol. 

Mesmo em meados dos anos 50, a fraca compleição física, com seu 1m58, desanimava os técnicos. Mas, na base do Paysandu, ele acabou se destacando. Numa época em que ainda havia o campeonato de aspirantes, Paulo Braga tornou-se dono da camisa 10 e virou sinônimo de habilidade, oportunismo e muitos títulos. Ele formou um esquadrão ao lado de jogadores como Abel, Beto, Vila, Milton Dias, Bené e o mítico goleiro Castilho.

O primeiro dos doze títulos estaduais veio em 56 (duplamente, pois também foi campeão de aspirantes), seguido das taças de 57, 59, 61, 62, 63, 65, 66, 67, 69, 71 e 72. Para ele, é difícil lembrar se há um clássico mais especial que o outro, mas os dois primeiros como profissional foram diferentes. “Em 56 era ainda um garoto e fazia nove anos que o Paysandu não ganhava um título. Eu entrei nos dois jogos finais contra o Remo e marquei gols nas duas partidas”, lembra Quarenta.

Nove anos depois, o meia estava em campo na até hoje lembrada vitória sobre o Peñarol. No dia 18 de julho de 1965, o Papão venceu o então tricampeão da Libertadores e base da Seleção Uruguaia por 3 a 0, gols de Ércio, Milton Dias e Pau Preto. O time aurinegro tinha jogadores como o goleiro Mazurkiewicz, o volante Forlán, o meia Pedro Rocha e o atacante Spencer.

Conciliando a vida de boleiro como o de funcionário público, Quarentinha conciliou o futebol com o trabalho como perito datiloscópico na Polícia Civil. Em 1973, no último jogo, um clássico contra a Tuna Luso, mesmo adversário de sua estreia como profissional, sua importância para o futebol paraense teve reconhecimento do maior rival, com o Clube do Remo cedendo o Baenão para a realização da partida de despedida.

Emprego fixo e clube rígido atrapalhavam transferências

Na sala da residência de Quarentinha, no bairro do Telégrafo, fotos, troféus, bolas antigas e chuteiras da época de jogador formam um pequeno memorial ao que fez dos tempos de futebol profissional. Camisas do Paysandu? Nenhuma. “Dei todas durante os anos. Não consegui guardar nenhuma”, conta. Vendo o futebol paraense meio que de longe, mas com alguma atenção, Paulo Benedito Braga se mostra crítico, apontando erros de Papão e Leão e apoiando a utilização da base, além de uma maior atenção nas contratações de fora.

Para quem diz que o futebol de hoje é mais competitivo, ele retruca logo em seguida: “Não existe futebol moderno, existem métodos modernos. Muito do que se fazia antes se faz agora”, dizendo que o futebol nacional não soube conciliar o crescimento físico, o que fez com que perdêssemos espaço no cenário mundial. “Crescemos fisicamente, mas caímos na parte técnica. Perdemos espaço.”

Tendo jogado quase até os 40 anos, Quarentinha defende também a valorização da experiência, mas reconhece que não é fácil aguentar a pressão dos anos e manter-se competitivo. Hoje, para quem é jogador, mais ainda. “Tem-se a mania de não respeitar mais o jogador quando se chega a 30. Na minha época, íamos até os 40 anos e os campos era piores”, disse. “Com 30 anos o jogador é considerado velho, nem tanto pelo excesso de treinos e sim pela forma como treinam”, completa.

Sobre o sentimento no primeiro Re x Pa, Quarentinha se apegava a algo simples: “O sentimento era de aproveitar a oportunidade. Tinha 47 quilos e era um sonho, mas tinha que dar meu jeito de compensar isso. Já tinha jogado contra a Tuna, um amistoso, na despedida do Guimarães. Eu entrei no segundo tempo e tive uma atuação não muito convincente, mas ganhei experiência. Até os jornais disseram que eu estava ‘meio verde’ ainda. Veio o amadurecimento e no Re x Pa eu provei que poderia seguir no time.”

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