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Lanches enchem as crianças de açúcar, diz OMS

Alimentos têm alta densidade energética e baixo valor nutricional


Por: O Liberal Em 31 de janeiro, 2016 - 10h10 - Saúde

Suzana e Felipe: dificuldades vão sendo superadas com exemplo no dia a dia (Foto: Akira Onuma / O Liberal)

As crianças brasileiras estão consumindo mais de 70% da quantidade de açúcar diária recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apenas nos lanches intermediários. É o que revela o estudo inédito Nutri Brasil Infância II, que vem para evidenciar os excessos que ocorrem na alimentação infantil - e que, com certeza, contribuem com a epidemia de obesidade que assola o Brasil nos últimos anos. O consumo habitual médio de açúcar proveniente de alimentos ingeridos apenas nos lanches pode atingir a marca de 5,8 kg por criança ao longo de um ano. É muito açúcar que cada uma dessas lancheiras carrega em uma fase em que os hábitos alimentares estão ainda em formação.

Os primeiros três itens que compõem o lanche da tarde das crianças de 4 a 6 anos do Norte - onde estão as crianças paraenses - e Nordeste são alimentos de alta densidade energética e baixo valor nutricional: biscoito doce recheado, balas/pirulitos/caramelos e refrigerantes. A partir do relato das mães entrevistadas, o estudo evidenciou que uma em cada três crianças come frequentemente biscoito recheado, especialmente no lanche da tarde. Somente com este alimento, as crianças já alcançariam quase 40% de todo o açúcar recomendado para o dia. Uma em cada cinco crianças tem relato de consumo muito frequente de balas, pirulitos ou caramelos no mesmo horário. Atualmente, o Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de refrigerantes e bebidas adoçadas (especialmente sucos), e o estudo mostra que este hábito começa muito cedo: uma em cada dez crianças brasileiras de 4 a 6 anos consome refrigerante no lanche da tarde. O consumo habitual médio ao longo de um ano pode atingir a marca de 40 litros, apenas considerando o consumo da bebida no lanche da tarde.

E, quando o assunto são os sucos industrializados, os dados não são muito diferentes: uma em cada dez crianças brasileiras de 4 a 6 anos consome suco industrializado no lanche da tarde, podendo atingir, ao longo de um ano, o consumo de mais de 3 kg de açúcar provenientes apenas de suco, no lanche da tarde. Considerando a frequência com que os lanches são realizados, são consumidos sucos geralmente adicionados de açúcar, ou com pouca quantidade de frutas, determinando grandes quantidades de açúcar, pouca de fibras e pouca utilização de sucos ou frutas in natura.

Regionalmente, os biscoitos doces recheados ocupam o topo da lista de consumo no lanche da tarde em quase todas as regiões brasileiras, com exceção das regiões Sul e Centro-Oeste, em que aparecem em 2º lugar, com 26,29% e 25,47% em frequência de consumo, respectivamente. Na região Centro-Oeste é onde se encontram os maiores índices de consumo de açúcar no lanche da tarde das crianças de 4 a 6 anos - 21,4 g, enquanto a OMS preconiza 22,5 g durante todo o dia. A fonte desse nutriente está no consumo dos biscoitos doces recheados (porção maior em relação às demais regiões) e na presença de bebidas açucaradas (sucos industrializados adoçados).

Ainda nesta região, a soma da quantidade de açúcar ingerida no lanche da manhã e no lanche da tarde ultrapassa o limite recomendado, atingindo 131,5%. “O estudo avaliou todas as refeições dessas crianças. Mas, nesta primeira fase, a prioridade foi entender no detalhe o que estava consumido no momento do lanche, pois constatamos que alimentos de alta densidade energética e baixo valor nutricional estão ocupando cada vez mais este momento de consumo”, diz o pediatra, nutrólogo e coordenador do estudo, médico Carlos Nogueira, diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). “Os lanches intermediários podem ser grandes aliados do bom desenvolvimento na infância, pois são uma oportunidade de consumo de alimentos com nutrientes essenciais como proteínas de boa qualidade, cereais, frutas, fibras e alguns minerais essenciais como o cálcio”, completa o professor Mauro Fisberg, do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi - Hospital Infantil Sabará. 

A publicitária Suzana Magalhães, de 27 anos, mudou a rotina alimentar de seu filho Felipe, de 5 anos, desde o ano, depois que a criança teve uma reação à ingestão de biscoitos doces e achocolatados, mas não se considera rígida nesse assunto. “Nos lanches intermediários ele gosta muito de café com leite e pão ou bolacha salgada. Às vezes ofereço outras opções como frutas e iogurte”, declarou. O menino tem entre suas preferências bolacha salgada, pão, café, suco de laranja e maçã e admite que tem dificuldades para comer salada e tomar sucos naturais, por exemplo.

Segundo as recomendações dietéticas do Manual do Lanche Saudável da Sociedade Brasileira de Pediatria, o lanche intermediário usualmente deve ser composto por uma fruta, fonte de carboidrato (biscoitos e pães integrais, por exemplo), fonte de proteína (como os alimentos de origem láctea: leite, queijos, iogurte, petit suisse) e uma bebida, que deve ser preferencialmente a água ou sucos sem açúcar. Os dados foram coletados pelo Instituto Kantar Worldpanel, e o trabalho - cujos resultados foram divulgados no final de dezembro - avaliou a frequência habitual de consumo de alimentos entre os dias 8 de junho e 3 de julho de 2015 nas cinco regiões brasileiras.

Ao todo, participaram 3.756 crianças de 4 a 11 anos, sendo 1.391 com idade entre 4 e 6 anos. O estudo foi coordenado pelo Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e pelo médico Mauro Fisberg, com apoio da Danone, indústria do ramo alimentício.