Mais Acessadas

'Já vi muitos baleados', diz brasileiro sobre atentados

Abordado após atentado, neurocirurgião disse: "Não estou com medo, sou do Rio"


Por: O Globo Em 24 de março, 2017 - 07h07 - Mundo

O nome de Renato Lincoln Patrício circula pelas redes sociais desde quarta-feira (22) , quando, de férias em Londres, no Reino Unido, ele deu entrevista ao site da emissora americana CNN logo após o atentado perto do Parlamento Britânico que deixou cinco mortos. O médico estava próximo ao local do crime e, quando o repórter perguntou se ele estava assustado, Patrício respondeu: "Estou apenas supreso. Mas não estou com medo. Sou do Rio".

A calma de Patrício diante da violência se deve aos 27 anos de carreira atuando como neurocirurgião em hospitais públicos da cidade, onde presenciou até balas traçantes durante um plantão na sala dos médicos do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio.

Foto: Arquivo Pessoal

— Pela minha experiência de atendimento de emergência no Rio, vendo os casos de politraumatizados que são consequência da violência na cidade, já tenho uma bagagem que me deixa tranquilo em situações de emergência e conflito como a que eu presenciei ontem — explicou o médico de 52 anos ao GLOBO por telefone.

Patrício está fazendo uma viagem com a mulher e estava passeando no momento do ataque terrorista. O neurocirurgião contou que, próximo da esquina da Abadia de Westminster, escutou três tiros.

— O trânsito parou de repente, e caminhei para ver o que tinha acontecido. As pessoas estavam surpresas, tinha um carro preto batido e uma pessoa caída no chão ao lado do carro. Ficou todo mundo observando, tirando fotos e depois chegaram policiais pedindo que as pessoas se afastassem. Ninguém imaginou que fosse um atentado — contou.

Patrício mora em Niterói e nunca passou por situações de violência em sua vida pessoal, mas, antes da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Complexo do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, ficava apreensivo com os tiroteios que escutava no Hospital Federal de Ipanema, onde atualmente trabalha. Durante a viagem na Europa, o cirurgião soube do assalto com reféns ocorrido em Niterói, perto do acesso à Ponte Rio-Niterói.

Somente nesta quinta-feira foram registrados ao menos cinco tiroteios no Rio. Quatro moradores ficaram feridos na Cidade de Deus, Zona Oeste. Houve duas trocas de tiros entre policiais e bandidos na Zona Portuária: um no Morro da Providência e outro na região da Praça Mauá. Também foram registrados disparos na Favela do Pavão-Pavãozinho e no Morro do Juramento, na Zona Norte do Rio.

— Morre-se muito mais gente no Brasil por causa da violência do que em guerras civis pelo mundo. Já vi muitos baleados, atendi a muitos baleados, operei muitos baleados. Então, isso me faz ter essa calma num momento de crise, de pânico. Não me apavoro facilmente — acrescentou.