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Impasses ilusórios

Esse argumento é apenas uma tentativa de avisar aos delatores de que, em benefício do equilíbrio das instituições


Por: O Liberal Em 14 de novembro, 2016 - 08h08 - Editorial

Delações do fim do mundo, como as que estão sendo preparadas por mais de 50 executivos de empreiteira que distribuiu propinas milionárias no escândalo da Petrobras, vão acabar com o Brasil?

Durante décadas e séculos, agentes públicos, em conluio com segmentos privados, têm perpetrado roubalheiras monstruosas contra os cofres públicos. Roubar, locupletar-se, enriquecer ilicitamente, valer-se de facilidades oportunizadas por legislações complacentes demais para coibir malfeitoriais, tudo isso, enfim, não acabou com o Brasil há cinco séculos. Por que, então, revelações como as que devem brotar dessas delações haveriam de levar o País a nocaute?

Alega-se que, dependendo do grau das histórias que forem contadas por executivos que por muitos anos distribuíram propinas a rodo para políticos de projeção, o País poderia entrar no que voltam a chamar de “impasse institucional”. Isso não passa de conversa fiada.

Esse argumento é apenas uma tentativa de avisar aos delatores de que, em benefício do equilíbrio das instituições, seria melhor que ficassem calados em relação a uma parte do que sabem. Ou por outra: seria mais conveniente que contassem apenas aquilo que não comprometeria a estabilidade institucional do País.

Convém recordar. Nos últimos 30 anos, dois presidentes da República já foram submetidos a processos de impeachment. Ambos foram afastados do cargo. E as instituições se mantiveram íntegras, intactas, imunes às previsões catastróficas que também foram feitas por tantos, em tantas oportunidades, e que igualmente previram equivocadamente convulsões políticas incontornáveis, caso os processos de impeachment fossem levados até o fim.

Convençam-se todos de que desequilíbrios - institucionais, morais, econômicos, políticos e sociais - ocorrem quando a roubalheira atinge patamar de tal ordem que uma empresa chegou a criar uma seção, chamada Departamento de Operações Estruturadas, incumbida especificamente de gerenciar e monitorar a propina distribuída a políticos e seus apaniguados, que tomavam conta do butim nas grandes estatais brasileiras. O tal departamento, como se sabe, foi criado e operou ativamente na mesma empreiteira cujos executivos preparam agora a colaboração premiada, a que muitos já estão chamando de “delações do fim do mundo”.

A Operação Lava Jato é um momento irreversível de assepsia. Não se pode dizer que seu transcurso vai acabar completamente com a corrupção no Brasil, porque isso é impossível em qualquer lugar. Mas sua continuidade levará o País a incorporar novas e saudáveis práticas, que revertam em benefício da população, e não em benefício de corruptos contumazes.