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Divergências e consensos

erceiro, porque das divergências é que surge a base para o consenso


Por: O Liberal Em 09 de dezembro, 2016 - 08h08 - Editorial

Não existe democracia onde há unanimidade. Primeiro, porque unanimidades são burras, como já dizia Nelson Rodrigues (1912-1980). Segundo, porque é natural que, no choque entre pretensões legítimas, as discordâncias preponderem. Terceiro, porque das divergências é que surge a base para o consenso.

Nunca, jamais, em tempo algum haverá no Brasil concordância geral, irrestrita e absoluta quando à reforma da Previdência Social, que o governo deverá enviou ao Congresso Nacional nesta semana e deverá ser votado o quanto, conforme o desejo do Palácio do Planalto. E nada mais natural do que resistências, discordâncias e divergências. Mas é por isso mesmo que a negociação se faz imprescindível e inadiável.

Ao que tudo indica, lideranças de vários segmentos parecem acordar para a necessidade de negociar. O próprio governo, aliás, já avisou que vai conversar com as centrais sindicais, no início do que será um grande debate sobre as propostas que deverão ser colhidas a partir da que foi enviada ao Congresso, propondo mudanças profundas no sistema previdenciário.

Mas a disposição do governo em abrir o debate não encontra campo fértil em alguns segmentos políticos que se mostram completamente avessos a exercer qualquer contraditório. Por quê? Talvez porque estejam apegados a preconceitos ideológicos insuperáveis - e por isso mesmo prejudiciais à convivência democrática.

Em que se baseia esse preconceito? Na presunção de que a proposta deve ser inapelável e irreversivelmente rejeitada, porque apresentada por um governo que, segundo esses críticos tomados de fúria incontida, estaria propenso apenas a retirar direitos adquiridos.

O Palácio do Planalto tem reafirmado, em todas as ocasiões que se fazem propícias a isso, a total improcedência de expectativas de que os trabalhadores seriam atingidos em direitos que já consolidaram amplamente. Mas, ainda que a proposta submetida ao exame do Poder Legislativo contivesse agressões a direitos adquiridos, não seria ideal justamente debatê-la, para evitar que essa agressão se consumasse?

Só mesmo os ideologicamente preconceituosos é que haverão de responder negativamente a questionamentos como esse, porque estão certos de que, ao contrário do que seria normal numa democracia, todos devem concordar com tudo, a qualquer tempo e em qualquer circunstância.

Ora, nem nas mais descaradas ditaduras é assim. Em qualquer regime ditatorial, o que ninguém pode é externar suas críticas e discordâncias, mas as insatisfações existem, muito embora sejam represadas.

Se os nossos preconceituosos ideológicos se convencessem disso, talvez se mostrassem mais abertos à negociação.