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Delatores não mandam flores

Delatados também


Por: O Liberal Em 29 de março, 2017 - 07h07 - Editorial

Delatores não mandam flores. Delatados também. Uns e outros não compartilham mais os mesmos interesses, as mesmas pretensões que compartilhavam quando participam dos mesmos negócios - criminosos e espúrios.

Delatores da Lava Jato não mandam flores para seus delatados. E a recíproca é absolutamente verdadeira. E não poderia ser diferente. Se delatados admitissem como minimamente verazes as delações que os acusam, alguma coisa estaria errada.

Não configura a menor anormalidade o fato de os delatados da Lava Jato desmentirem as graves denúncias de que receberam propinas provenientes de contratos entre a Petrobras e grandes empresas. Não configura a menor anormalidade o fato tentarem, de alguma forma, desqualificar as descrições detalhadíssimas que delatores fazem, quando chamados a contar à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal as histórias que sabem sobre as formas como as propinas chegavam a seus destinatários, muitos deles políticos de projeção.

No dia em que delatados da Lava Jato confessarem totalmente as delações que os atingem, alguma coisa também estará errada. Seria ilógico, irracional e fora do ponto de curva, como se diz, esperar que denunciados concordassem com denunciantes. Mas é fato que as práticas descritas contêm minúcias de estarrecer e corroboram a convicção de que os delatores estão dizendo a verdade.

É o caso das histórias que ex-executivos da Odebrecht contaram, durante depoimentos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre onde foram entregues propinas para a campanha de 2014. José de Carvalho Filho, por exemplo disse que recebeu do atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), todos os endereços para o pagamento de R$ 4 milhões destinados ao PMDB durante a campanha eleitoral de 2014. Ainda segundo o delator, um dos locais indicados por Padilha foi o escritório de José Yunes, amigo e ex-assessor de Michel Temer, onde teria sido feito pagamento no dia 4 de setembro de 2014. Temer não teria pedido dinheiro para a campanha.

Em outro depoimento, o ex-executivo da Odebrecht Hilberto Mascarenhas, relatou que as entregas de dinheiro em espécie para políticos aconteciam em “lugares absurdos” e até “cabaré”.

Questionado por um juiz do TSE sobre como eram feitos os pagamentos ao marqueteiro João Santana e à mulher dele, Mônica Moura, Hilberto respondeu: “Se fossem valores pequenos encontravam num bar, em todos os lugares. Você não tem ideia dos lugares mais absurdos que se encontra (sic), no cabaré...”.

Se detalhes como esses são desprezíveis, o que mais haverá de ser considerado como a expressão da mais pura verdade na Lava Jato?