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Celulares ou armas

Da tarde de sexta-feira até o início da noite de ontem, pelo menos 54 ataques criminosos foram registrados em 20 cidades do RN


Por: O Liberal Em 01 de agosto, 2016 - 08h08 - Editorial

Se alguém, sobretudo e inclusive os especialistas na área de segurança pública, ainda tem dúvidas de que telefones celulares transformaram-se numa arma das mais preciosas nas mãos de bandidos trancafiados em presídios brasileiros, as ocorrências que se registram em Natal, capital do Rio Grande do Norte, talvez sejam suficientes para desestimular a continuidade de discussões inúteis sobre esse assunto.

Da tarde de sexta-feira até o início da noite de ontem, pelo menos 54 ataques criminosos foram registrados em 20 cidades do Rio Grande do Norte. A Segurança Pública do Estado (Sesed) informou que 51 pessoas foram presas como suspeitas de envolvimento nos ataques. Uma pessoa ficou ferida na tarde deste domingo, após explosão em um carro estacionado dentro de um supermercado da cidade.

Por causa dos ataques criminosos ao sistema de transporte, unidades policiais e prédios públicos, a capital potiguar já está mais de 24 horas sem ônibus. É a primeira vez na história de Natal que isso acontece. Mesmo em momentos de greve ou protestos dos rodoviários, a capital do Rio Grande do Norte e sua região metropolitana jamais ficaram mais de um dia inteiro sem coletivos nas ruas.

Por que os ataques? Por que os prejuízos impostos à população? Porque grupos criminosos resolveram reagir à instalação de bloqueadores de celular na Penitenciária Estadual de Parnamirim, na Grande Natal. Áudios divulgados amplamente na internet revelam bandidos mandando recados para comparsas e se referindo expressamente ao bloquero dos aparelhos. Numa das gravações, aparentemente feita por um detento da própria Penitenciária de Parnamirim, presidiário liga para uma apessoa e avisa sobre os planos de ataques que estariam para acontecer em represália à instalação dos bloqueadores.

O sistema penitenciário potiguar, vale ressaltar, não passa por um bom momento há bastante tempo. Em março do ano passado, após uma série de rebeliões em várias unidades prisionais, o governo decretou estado de calamidade pública e pediu ajuda à Força Nacional de Segurança. Para a recuperação de 14 presídios, todos depredados durante os motins, foram gastos mais de R$ 7 milhões. Mas tudo foi em vão. As melhorias feitas foram novamente destruídas. Atualmente, em várias unidades, as celas não possuem grades e os presos circulam livremente dentro dos pavilhões.

Essas condições não destoam tanto assim das que se verificam em outros presídios do País. Como também não assusta o fato de presidiários terem amplo acesso a telefones celulares. O que assusta é dispormos de uma legislação pouco rigorosa - para não dizer complacente - em relação a isso.