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Brasileiros foram unidos pelas “Diretas Já!” em 1984

O LIBERAL destaca o movimento popular pela eleição direta para a Presidência


Por: O Liberal Em 01 de dezembro, 2016 - 08h08 - O Liberal 70 anos

Foto: Oswaldo Forte/O Liberal

Um dos maiores movimentos populares já ocorridos no país, as “Diretas Já!”, completa 33 anos. O movimento promoveu atos públicos e comícios realizados nas principais capitais do país, entre elas Belém, e contavam com a presença de milhares de brasileiros - a maioria era de estudantes, sindicalistas, intelectuais, artistas e religiosos.

Nas páginas de O LIBERAL, a população paraense acompanhou de perto tudo o que acontecia nessas manifestações, que tinha um só lema: liberdade e democracia. Na capital do Estado, os encontros ocorriam na antiga avenida 1º de Dezembro, hoje João Paulo II. E uma das figuras desse movimento foi a cantora Fafá de Belém, que ficou conhecida como a musa das Diretas Já! 

Tudo começou porque o Brasil deixou de eleger o presidente da República a partir de 1960. Em 1982, siglas que ao mesmo tempo representavam maior direito de expressão política, também marcavam um atípico processo de fragmentação político-partidária. Estes partidos disputaram eleições para os governos estaduais e demais cargos legislativos. Mediante esse novo quadro, membros de oposição da Câmara dos Deputados tentaram articular uma lei que instituísse o voto direto na escolha do sucessor do presidente João Batista Figueiredo. Em 1983, essa movimentação tomou a forma de um projeto de lei elaborado pelo deputado peemedebista Dante de Oliveira. A população queria eleições para o cargo de presidente e a classe política queria retomar das mãos dos militares o poder político dentro do Brasil.

Segundo o cientista político Edir Veiga, dois fatores foram cruciais para o início do movimento: do ponto de vista social, a crise econômica, e como fator político, a ilegitimidade do governo militar. “Os militares vieram perdendo apoio progressivo da sociedade à medida que a crise econômica se fez sentir através do desemprego, arrocho salarial e inflação crescente. Isso, desde o início do governo João Figueiredo (1979/1985), quando a população sentiu no bolso e na vida o peso da crise econômica. A economia exuberante do governo do presidente Médici (1970/1974), que garantia a popularidade que o governo militar precisava, já não era mais a mesma, logo, começou um processo lento e gradual de desgaste político, o que se mostrou irreversível, para os destinos do governo militar, em curto prazo. Daí, a população brasileira entrou em cena”, conta.

Ainda segundo Edir, partir daí, surgiu uma megacoalizão envolvendo partidos, sindicatos, movimento estudantil, igreja, entre outros, para convencer todos os grupos sociais de que o agente causador de todos os males brasileiros tinha como propulsor os governos militares ilegítimos. “Assim, houve o consenso de que somente a sociedade, através da democracia, poderia encontrar soluções para os graves problemas nacionais”.

A Câmara dos Deputados iniciou então, no dia 25 de abril de 1984, a sessão da responsável por votar a emenda “Dante de Oliveira”. A Casa foi tomada por artistas e intelectuais, juntamente com a população, que organizou “buzinaços” e “panelaços” e multidões lotaram galerias do Congresso. Mesmo com todas as manifestações da população, não foi obtido o número de votos necessário para a aprovação da emenda. No dia 26 de abril, foi anunciado que os votos não poderiam ser alcançados. As multidões, decepcionadas, entoaram o Hino Nacional pelas ruas.

Sem a perspectiva de aprovação da emenda, a oposição passou a promover o candidato Tancredo Neves à Presidência da República mesmo que indiretamente. O presidente Figueiredo manteve o ano de 1989 como a data para realização das primeiras eleições diretas para o maior cargo do país.

Hoje, apesar de ser considerada uma democracia jovem, o Brasil se consolidou e amadureceu depois desse movimento, garante o cientista político. Ele cita dois ex-presidentes da República que foram importantes nesse processo de amadurecimento. “Sem dúvida, o sucesso na condução da política econômica dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram fundamentais para que a sociedade retomasse com vigor a crença de que, através da democracia, poderíamos ter governos com responsabilidade fiscal e capacidade de impulsionar de forma continuada o desenvolvimento econômico e social do Brasil”, destaca.