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Atrocidades comprovadas

Os desmentidos do governo sírio não são críveis


Por: O Liberal Em 17 de janeiro, 2017 - 08h08 - Editorial

Atrocidades cometidas em guerras como a da Síria, onde já morreram mais de 400 mil pessoas em cinco anos, parecem inibir investigadores internacionais a conferirem máxima urgência à apuração e responsabilização de crimes intoleráveis. Inclusive numa guerra.

As guerras não são eventos que permitam um vale-tudo incontrolável. A confrontação de forças deve se fazer dentro de certos parâmetros que não agridam e nem violem acintosamente convenções internacionais estabelecidas para impedir, por exemplo, que governos usem armas químicas para matar não apenas combatentes inimigos, mas milhares, milhões de crianças, jovens e adultos completamente indefesos.

Na Síria, onde o governo do ditador Bashar al-Assad tenta superar forças rebeldes, a guerra civil tem sido pródiga em exibir exemplos de violações internacionais que chocam o mundo, que espantam a humanidade e agridem a consciência de quem procura o mínimo resquício de justificativa em condutas desamparadas, infelizmente, de qualquer racionalidade.

Nunca é tarde, porém, para comprovar-se que a ocorrência de selvagerias, até agora insistentemente negadas pelo governo sírio, realmente aconteceram. É o que mostra relatório conjunto da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Opaq (Organização para a Proibição das Armas Químicas), que pela primeira vez incluíram os nomes de Bashar al-Assad e de seu irmão na lista de responsáveis pelo uso de armas químicas.

A ONU e a Opaq - que recebeu o Nobel da Paz de 2013 pelo trabalho de desarmamento químico na Síria - já haviam identificado unidades militares, mas é a primeira vez em que citam os líderes responsáveis por uma série de ataques químicos em 2014 e 2015. As informações compiladas pela ONU e pela Opaq têm base em investigações na Síria e nas agências de inteligência de diversos países.

O relatório menciona Assad, seu irmão Maher e outras figuras de alto escalão do governo sírio, o que indica que a decisão de usar armas químicas veio do topo do regime. Haveria, portanto, uma responsabilidade direta. São 15 nomes no total, incluindo o ministro da Defesa e o chefe da inteligência militar.

Um dos casos mais graves foi um ataque na região de Ghouta, na periferia de Damasco, em agosto de 2013, quando centenas de pessoas foram mortas ali pelo gás sarin.

O regime sírio já negou, em outras ocasiões, ter utilizado armas químicas. As acusações, diz, “não têm base verídica”. Os ataques citados pelo relatório seriam de responsabilidade de forças rebeldes e da organização terrorista Estado Islâmico.

Os desmentidos do governo sírio não são críveis. Até porque as guerras também são um terreno fértil para mentiras.