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Ataque à Síria lança dúvidas sobre estratégia de Trump

Especialistas apontam incoerência do presidente; próximos passos são incertos


Por: O Globo Em 09 de abril, 2017 - 17h05 - Mundo

Apenas 63 horas separaram o ataque químico que matou dezenas de pessoas na Síria, muitas delas crianças, da primeira ação americana contra as forças de Bashar al-Assad. O mundo comemorou a resposta firme de Donald Trump, que alterou o tabuleiro da guerra, colocando os EUA em rota de colisão contra a Rússia. Mas, imediatamente, surge a dúvida: o que vem agora? Apesar de o governo ter mantido um discurso forte, especialistas afirmam que a sensação é que não há uma estratégia clara sobre como os americanos vão agir a partir de agora neste conflito. Neste sábado, a cidade de Khan Sheikhoun — local do ataque químico da última terça-feira — voltou a ser alvo de bombardeios, segundo grupos de ativistas regionais, deixando pelo menos uma mulher morta e outras três pessoas feridas.

— Trata-se de uma demonstração única ou de uma mudança para se envolver mais profundamente na Síria? Se Barack Obama falou sobre a Síria, mas não agiu para apoiar suas palavras, Trump fez o oposto. Ele agiu sem dizer antecipadamente o que considera ser interesse dos EUA na Síria e como ele vai responder aos atos que considera uma ameaça a esses interesses. Trump precisa elaborar uma política sobre a Síria, o que os Estados Unidos pretendem realizar e quais os passos que poderá utilizar para concretizar esses objetivos — afirmou ao GLOBO James Morrow, professor da Universidade de Michigan.

Coluna de fumaça sobe após ataque aéreo em Daraa, área controlada por rebeldes. Foto: MOHAMAD ABAZEED/MOHAMAD ABAZEED/AFP

Trump justificou o ação da noite de quinta-feira, quando 59 mísseis foram disparados contra a base militar de onde teria partido o ataque químico que chocou o mundo, como uma resposta às fortes imagens das crianças que morreram com a operação. O presidente americano, que obteve uma inédita empatia mundial, afirmou que o regime de Assad, assim, ultrapassou todos os limites, e por isso os EUA endureceram, mudando a postura vigente nos primeiros seis anos do conflito sírio. A base aérea atacada voltou a operar ontem, segundo as autoridades.

Em seu editorial, o “New York Times” criticou a postura de Trump: “Por mais sincero que seja este sentimento (do governante), o espetáculo de um presidente que inverte abruptamente o curso sobre guerra e paz com base na emoção ou o que seus defensores descrevem como ‘instinto’ não inspira confiança”.

O jornal questiona se a ação foi legal — ou se era necessário uma aprovação do Congresso ou se viola as determinações do Conselho de Segurança da ONU —, se foi uma resposta isolada ou se trata de uma estratégia maior dos EUA, não apenas no conflito sírio, mas na luta contra o Estado Islâmico.

“Até agora, não há evidências de que o senhor Trump tenha pensado nas implicações de usar a força militar ou indicou o que fará em seguida”, conclui o “New York Times”.

O franco-americano Maxime Larive, diretor do Centro União Europeia na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e especialista em terrorismo, afirmou em entrevista ao GLOBO que ficou surpreso com o ataque e que muitas questões ficam abertas a partir de agora:

— Parece que foi uma retaliação emocional pelo presidente dos EUA. Os ataques de mísseis como retaliação colocam o governo Trump em contradição com as promessas da campanha, o “American First” (EUA em primeiro lugar) — questiona o especialista. — Os bombardeios não solucionam quaisquer problemas no terreno do conflito e não serão suficientes para minar Assad. Os ataques militares demonstram falta de clareza e estratégia do governo Trump.

Em sua opinião, o simples ataque, que muda o equilíbrio das forças no complicado xadrez da Síria, não responde a questões estruturais sobre a situação, como, por exemplo, se o governo americano agora vê o futuro da Síria com ou sem Assad. Ou, se a decisão for tirar o ditador, o que os EUA farão para evitar o que ocorreu na Líbia, onde o Estado Islâmico e grupos radicais ocuparam o vácuo do poder. Do contrário, as relações entre as duas nações ficariam ainda mais difíceis e a posição de Assad pode ficar fragilizada.

— Na campanha eleitoral, em abril de 2016, o candidato Trump declarou: “Nós somos uma nação humanitária, mas o legado das intervenções de Barack Obama e Hillary Clinton será a fraqueza, a confusão e a desordem, uma bagunça. Fizeram o Oriente Médio mais instável e caótico do que nunca”. O ataque agora mostra uma falta de coerência e a falta de visão da política externa do Trumpismo. Os ataques não servem aos interesses de longo prazo e só contribuem para aumentar a instabilidade numa parte altamente volátil do mundo — disse o especialista.

Maxime afirma ainda que a ação altera a relação entre Estados Unidos e Rússia — que aumentaram o nível de enfrentamento após a ação. Ele acredita que a reunião dos próximos dias em Moscou entre o secretário de Estado Rex Tillerson e o presidente russo, Vladimir Putin, pode ser um caminho para tentar coordenar uma ação conjunta entre as duas potências militares sobre a Síria, embora isso pareça cada dia mais distante, no momento.

— Deve-se observar que o uso da força pelos EUA contra outro Estado soberano sem o apoio do Conselho de Segurança da ONU coloca Washington em uma posição estranha com o direito internacional. Os Estados Unidos ratificaram a Carta das Nações Unidas e devem respeitá-la. Agora, as críticas da Rússia sobre a violação da soberania síria não têm substância após a forma como o presidente Putin usou a força na Síria, na Chechênia, na Geórgia, na Ucrânia e na Crimeia anexada — disse Maxime.

Em uma conversa por telefone ontem com Tillerson, o chanceler russo, Sergei Lavrov, assinalou que “um ataque a um país cujo governo luta contra o terrorismo somente é favorável para os extremistas e cria ameaças adicionais à segurança regional e global”.

ATAQUE DA COALIZÃO MATA 15 CIVIS

Na sexta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, se recusou a discutir quaisquer próximos passos — militares ou diplomáticos — da estratégia americana. Ele disse que o ataque foi uma ação decisiva, proporcional e justificada por “fins humanitários", mas se recusou a dizer se Assad deve deixar o poder. Tillerson, antes do ataque com mísseis, havia indicado que os passos diplomáticos para expulsar Assad já estavam “em andamento”. Resta saber se, até sua viagem a Moscou, haverá clareza para a negociação com Putin, um governante que, aos poucos, tem se firmado como o líder mais poderoso do mundo.

Em sua primeira manifestação sobre o ataque à base militar síria, a Coreia do Norte afirmou que o bombardeio foi “um ato de agressão imperdoável”, que mostrou que sua decisão de desenvolver armas nucleares foi “a escolha certa”. O Irã, por sua vez, pediu uma investigação imparcial do ataque químico. Enquanto as potências trocam acusações, a população síria continua sofrendo bombardeios. Neste sábado, um ataque aéreo atribuído à coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico matou 15 pessoas, incluindo quatro crianças, em um vilarejo a oeste de Raqqa, controlada por jihadistas, segundo o Observatório Sírio para Direitos Humanos.