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Arsenal nos presídios

Enquanto essa realidade se mantiver, os presídios - todos - continuarão a ser o barril de pólvora que sempre foram


Por: O Globo Em 07 de fevereiro, 2017 - 07h07 - Editorial

Presos armados em presídios que eles próprios controlam, diante da quase autoproclamada incapacidade da polícia de impor sua autoridade, representam a mais definitiva e irretorquível demonstração de que o sistema penitenciário brasileiro virou um caos - um absoluto caos -, com as exceções que apenas confirmam a regra.

E o que não dizer de telefones celulares nas mãos de presidiários? E o que não dizer de detentos que já se exibiram até mesmo em redes sociais, fazendo farras no interior de penitenciárias? E o que não dizer de organizações criminosas que ostentam, em seu portfólio de negócios, telefonemas para aparelhos fixos ou móveis de cidadãos inocentes, induzindo-os a imaginar que familiares seus estão sendo sequestrados e extorquindo fábulas de dinheiro?

Há poucos dias, disseminaram-se na internet imagens de três detentos que se encontravam no teto do Presídio de Alcaçuz, em Natal (RN), onde 33 presos foram chacinados, logo depois das matanças em Manaus (AM) e Boa Vista (RR). Os três portavam - ostensivamente, afrontosamente, debochadamente - telefones celulares, que se transformam, vale ressaltar, em verdadeiras armas nas mãos de elementos de altíssima periculosidade.

Essas situações são inaceitáveis e - por que não? - quase inacreditáveis. Mas refletem a situação enfrentada por quase todos os presídios do País. Apenas no ano passado, o Estado do Rio apreendeu 371 fuzis em poder de bandidos, segundo informações do Instituto de Segurança Pública (ISP). Em dez anos, 2.615 fuzis foram tirados de circulação.

Levantamento concluído recentemente pelo ISP mostra que o número de fuzis apreendidos em 2007, quando a contagem começou, foi de 214 - ou seja, houve um aumento de 72% em comparação com o ano passado. O estudo é divulgado num momento de recrudescimento da violência, com grande quantidade de policiais assassinados e de casos de pessoas atingidas por balas perdidas em várias cidades, a maior delas o Rio de Janeiro.

O levantamento ficou pronto na mesma semana em que foi divulgada a descoberta de uma bala de fuzil calibre 7.62 presa à fuselagem de um Boeing 767-300 da Latam. A Polícia Federal investiga a possibilidade de o disparo ter sido feito quando o avião pousava no Aeroporto Internacional Galeão-Tom Jobim.

Não foi a primeira vez que um tiro de uma arma de guerra atingiu uma aeronave em pleno voo. Em outubro de 2009, disparos de fuzil derrubaram um helicóptero da Polícia Militar durante operação no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Três tripulantes morreram.

Enquanto essa realidade se mantiver, os presídios - todos - continuarão a ser o barril de pólvora que sempre foram.