Animação produzida por del Toro celebra folclore mexicano

Trama de ‘Festa no céu’, dirigido por Jorge R. Gutierrez, é inspirada na celebração do Dia dos Mortos


Por: O Globo Em 17 de outubro, 2014 - 07h07 - Cartaz

É com entusiasmo e uma certa nostalgia que o animador Jorge R. Gutierrez e o produtor Guillermo del Toro lembram de como comemoravam, quando criança, o Dia dos Mortos, a versão mais colorida e celebratória do Dia de Finados dos países católicos. A memória afetiva dos dois alimenta a trama e o visual de “Festa no céu” (“The book of life” no original), animação em cartaz desde quinta-feira (16) inspirada nas tradições de um dos mais populares feriados do México.

— Eu e meus pais íamos à sepultura de nossos ancestrais com comidas e bebidas. Minha mãe levava um violão, ficávamos cantando músicas e eles nos contavam histórias de meus avós e bisavós — conta Gutierrez, 39 anos, em entrevista ao GLOBO, por telefone, da Cidade do México. — Lembro de meu pai ter dito: “Jorge, certifique-se de fazer coisas na vida das quais as pessoas que vierem depois de você possam lembrar com orgulho”.

Del Toro, que viveu grande parte da juventude com a avó materna, encontrou no Dia dos Mortos afinidades que inspirariam sua carreira profissional.

— Costumávamos visitar a sepultura do meu avô, para comer pão, rezar e conversar com o espírito dele. Depois, íamos para o mercado a céu aberto, do lado de fora de cemitério, onde vendiam caveiras de açúcar, de borracha, esqueletos de brinquedo, toda forma de representação da morte. Desde de criança me interesso pelo tema. Para mim, o Dia dos Mortos era a melhor temporada de compras do ano. O entusiasmo que as outras crianças sentiam pela proximidade do Natal eu sentia pelo Dia dos Mortos — conta o realizador de 50 anos, mundialmente conhecido por suas incursões no macabro, em filmes como “A espinha do diabo” (2001), “O labirinto do fauno” (2006), e na série de TV “The strain” (2014).

“Festa no céu” é resultado da combinação das inclinações e talentos dos dois cineastas — Gutierrez, um estreante no longa-metragem, na criação e na direção, e Del Toro na produção e concepção visual — com o folclore mexicano. A história descreve um México ancestral (em que os vivos reverenciam a Terra dos Lembrados e temem a Terra dos Esquecidos), onde dois amigos de infância disputam o coração da bela Maria (voz de Zoe Saldanha, na versão original): Manolo (Diego Luna), um jovem toureiro dividido entre as expectativas da família e o seu desejo de se tornar músico, e Joaquin (Channing Tatum), que se tornou um bravo militar, mas às custas de um poderoso talismã.

Foto: Reprodução

— O México de “Festa no céu” é mágico, mítico — descreve Del Toro. — O nosso Dia de Finados é extremamente cheio de vida, um momento de celebração daqueles que se foram e daqueles que ficaram. Isso é fundamental para entender o nosso feriado. Daí eu ter achado que o título que o filme recebeu no Brasil, “Festa no céu”, ser muito bom. Tudo que tem a palavra “festa” no meio vale a pena!

ELVIS PRESLEY E RADIOHEAD NA TRILHA

O clima festivo se estende à trilha sonora, coordenada pelo argentino Gustavo Santaolalla, premiado com o Oscar por seu trabalho em filmes como “O segredo de Brokeback Mountain” (2005), de Ang Lee, e “Babel” (2006), de Alejandro González Iñárritu. A banda sonora do filme alinhava uma série de versões de hits de bandas como Radiohead (“Creep”) e Mumford & Sons (“I will wait”), e de clássicos populares consagrados nas vozes de Elvis Presley (“Can’t help falling in love”) e Rod Stewart (“Do ya think I’m sexy”), entre outros artistas.

— Eu conhecia o trabalho do Gustavo não somente por seus filmes premiados, mas também por ele ser produtor de algumas das minhas bandas favoritas, mexicanas e argentinas, que misturam influencias do techno, do punk, da Bossa Nova e da música mariachi. Ele era perfeito! — elogia Gutierrez. — Escolhemos canções que tinham a ver com as situações dos personagens e demos a elas uma pegada latina.

“Festa no céu” tem alma mexicana, mas fala de sentimentos e comportamentos universais.

— O Guillermo costuma dizer que, para sermos entendidos por todo mundo, precisamos ser bastante específicos sobre nós mesmos. — entende o diretor. — Filmes estrangeiros que adoramos são bem específicos sobre seus países de origem, como “Cidade de Deus”, em relação ao Brasil, e “O fabuloso destino de Amélie Poulin” (2001), em relação à França, mas tocam em temas universais.