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Amazônia concentra metade do trabalho infantil da América

A estimativa é que a Amazônia tenha aproximadamente sete milhões de crianças e adolescentes que trabalham


Por: O Liberal Em 31 de março, 2017 - 07h07 - Amazônia

A grande região amazônica, que abarca nove países, concentra 50% do trabalho infantil de toda a América Latina. A estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é que a Amazônia tenha aproximadamente sete milhões de crianças e adolescentes que trabalham. De acordo com a secretária técnica da Iniciativa Regional da América Latina e Caribe de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Maria Olave, este dado ainda é uma estimativa já que as informações sobre o trabalho infantil na região ainda são imprecisas. 

A exploração sexual de crianças e adolescentes também foi abordado no debate “A proteção a crianças e adolescentes na Amazônia” que aconteceu ontem no quarto dia do Seminário Pan-Amazônico de Proteção Social. O evento, realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), em parceria com órgãos como a Unesco e o Banco Mundial, será encerrado hoje no Hotel Princesa Louçã.

Representantes do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela discutiram dados e ações para erradicar o trabalho e a exploração sexual infantil na região. Segundo Olave, o trabalho infantil apresenta muitas características comuns entre os países, como estar concentrado em atividades perigosas, nas zonas rurais, em setores econômicos como agricultura e pecuária, e até em atividades familiares.

“Entendeu-se na América Latina que o trabalho infantil se origina por múltiplos fatores. Temos uma conjunção de elementos como a pobreza, a percepção cultural e a valorização do trabalho, a debilidade de acesso ao direitos universais como saúde e educação, e cada vez temos um mercado de trabalho mais informal - mais precário - que afeta a capacidade da unidade familiar de satisfazer suas próprias necessidades”, apontou. Por ter diferentes raízes, o trabalho infantil também deve ser enfrentado de maneira multisetorial. “Não se pode esperar que o governo central responda. É necessário uma resposta de toda a sociedade como as diferentes esferas dos governos, empresários, sindicatos e entidades da sociedade civil”, alertou.

A exploração sexual é outro problema grave que afeta a vida de milhares de crianças e adolescentes na Amazônia. A secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Cláudia Vidigal, explicou que a exploração sexual acontece de várias maneiras diferentes e na Amazônia a situação pode ser resultado do impacto das grandes obras na região Norte. 

A chegada de milhares de homens atraídos pelos empregos nas grandes obras pode ser um motivo de desequilíbrio nas comunidades da Amazônia. “Será necessário pensar outras políticas nesta mudança da sociedade que está ocorrendo, nesta situação das grandes obras. Muito pode ser feito no planejamento destas obras, no financiamento delas, para que os compromissos dos direitos de crianças e adolescentes seja pensado, antes da obra chegar”, defendeu. Ua das propostas são protocolos a serem seguidos por construtoras e agentes financiadores para defender os direitos de crianças e adolescentes nas áreas impactadas.

Para Cláudia, a experiência com a conscientização dos caminhoneiros nas rodovias federais e estaduais que passaram a denunciar pontos de prostituição infantil pode servir de exemplo para a Amazônia. “O que a gente está fazendo é uma parceria com a Marinha mercante para mapear os pontos de maior vulnerabilidade e atuar nestes pontos, conversar com quem trabalha naquele ponto. Os caminhoneiros eram considerados como os principais violadores de direitos. Hoje eles são os principais agentes de proteção. Não vou dizer que não existam violadores. Mas eles de fato fizeram uma transição: quando vêem uma menina na beira da estrada ligam disque 100 e denunciam”, afirmou.

As fronteiras tênues entre os países da Amazônia também foram analisadas pelas duas palestrantes. Segundo elas, muitas crianças e adolescentes cruzam as fronteiras para trabalhar e se prostituir. Por esse motivo são necessárias ações conjuntas dos países nas fronteiras.