A transformação da palavra nas obras de Max Martins

Poetas paraenses comemoram os 90 anos de um ícone da cultura literária


Por: O Liberal Em 20 de junho, 2016 - 08h08 - Dicas: livro e DVD

Um escritor que assumiu o ofício das letras com dedicação. Uma vida inteira voltada à exaltação da palavra. Um homem generoso. Um amigo no trabalho. São muitas as definições para o poeta paraense Max Martins, que se estivesse vivo completaria hoje, 20 de junho, 90 anos.   

Para celebrar a trajetória deste autor tão representativo para a literatura brasileira, as comemorações começaram em 2015, com o lançamento do projeto "Max Martins, rumo aos 90 anos", pela Fundação Cultural do Pará.  

Nesta segunda-feira, 20, poetas, admiradores, amigos de trabalho, pessoas que conviveram com o escritor comemoram a data na Casa da Linguagem, com o relançamento da obra "Impossível não te ofertar", poemas à Max Martins, título "roubado" de um verso do autor em "Isto por aquilo". A publicação reúne várias gerações de escritores influenciados por Max Martins e que Elaine Oliveira, coordenadora de Linguagem Verbal da Casa e também coordenadora do projeto, compara como os "indecorosos pássaros da linguagem", de que fala Max Martins em seu poema Exílio 2. "Os autores que assumem em seu ofício o princípio da elaboração do poema como um processo criativo e experimental com a palavra, na busca incessante por novos repertórios e formas de expressão", observa Oliveira. A programação inclui ainda roda de poesia, com declamação de poemas. Será exibido ainda um vídeo com duração de 10 minutos, que irá mostrar uma entrevista na década de 90, em que Max Martins fala de uma exposição literária. As imagens são do acervo das Oficinas Curro Velho e foram restauradas para compor as homenagens ao poeta paraense.

Max Martins nasceu em 20 de junho de 1926 em Belém do Pará, onde viveu e trabalhou, constituiu família e publicou toda sua obra literária. Foi Diretor da Casa da Linguagem, de 1991 a 2002, espaço dedicado à promoção da leitura, da arte e da literatura. O poeta faleceu em 09 de fevereiro de 2009, aos 82 anos. Escreveu, entre outras obras, O estranho (1952); H'era (1971); Caminho de Marahu (1983) e Para ter onde ir (1992).

Inspirações - Elaine Oliveira conheceu Max Martins em 1997 quando foi trabalhar na Casa. Para ela, Max é um dos escritores mais representativos da literatura contemporânea na Amazônia e no Brasil. Um dos destaques em sua obra, segundo Elaine, são as experimentações da linguagem por meio dos recursos estilísticos visuais e da riqueza temática. "Sua obra ressaltava o fazer poético, o amor, a vida, a existência e a morte", ressalta. 

Foto: Ary Souza/O Liberal

"Generoso, amigo simples, acessível a todos os funcionários e poetas que o procuravam para falar de poesia e de sua obra". É assim que Elaine se lembra do colega de trabalho Max Martins. "Ele costumava presentear os amigos com poemas. No meu aniversário ganhei um autografado", conta.

O também poeta Ronaldo Franco, era amigo de Max Martins e o tinha como um dos seus inspiradores. Ele lembra com carinho das infindáveis conversas com Max, ambientadas no Bar do Parque e na Casa da Linguagem. "O Max é minha leitura obrigatória. Alfabetizo-me com seus poemas", diz o escritor.

Pedro Vianna é um dos escritores que dedicou um poema a Max Martins, que ele considera um dos maiores poetas do País. Ele é um dos autores que se aproximou de Max Martins em busca de inspiração e incentivo. Pedro destaca que, como ninguém, Max Martins encarnou a modernidade no que ela tem de mais amplo, atento à tradição literária, porém extremamente transgressor. "A poesia dele me influenciou bastante, sobretudo a questão da visualidade do poema e da fratura do verso", diz Vianna sobre o estilo do poeta paraense em dispor as palavras.

Seu primeiro contato com o escritor, assim como muitos outros jovens amantes das letras, foi na escola. O interesse foi tamanho que ele o procurou na Casa da Linguagem, onde conversaram algumas vezes e Pedro mostrou seus primeiros poemas. "Ele me incentivou, indicou leituras, sempre foi muito gentil", lembra.

A artista visual Danielle Fonseca também emprestou seu talento para homenagear Max Martins. Ela pesquisa a obra do poeta desde 2005, quando fez o vídeo "O Tao Caminho". "Acredito na obra do Max como a obra de um poeta completo, possui além da poesia propriamente dita, muita visualidade e porque não arriscar dizer música também. Essas características me interessam bastante para as artes visuais", explica. 

A visualidade, aliterações, experimentalismos são características presentes na obra de Max Martins, as quais Danielle considera únicas. "Gosto muito do jogo de ideias e palavras que ele faz, vejo também muito da poesia visual e do concretismo em Max. Mesmo que não diretamente, mas na vanguarda com certeza", diz. 

Motivação - A contribuição de Max Martins passa por todas as gerações de escritores, mas sem dúvida é de importância fundamental para os jovens leitores e, sobretudo, poetas. Suas experimentações com as palavras e seu vasto vocabulário para as poesias foi o que chamou a atenção da professora Salier Castro, que fez da obra de Max Martins seu objeto de estudo desde a graduação, com leituras e atividades de apresentação para alunos do ensino fundamental, seguindo para a especialização, sobre a presença do Signo Água no conjunto de poemas "Travessia". Atualmente Salier iniciou sua pesquisa para dissertação de mestrado sobre a formação leitora do poeta. 

Salier Castro é professora do projeto Sala de Leitura, da Escola Benjamin Constant e junto com a Fundação Cultural do Pará, através da Casa da Linguagem produziram gravações de poemas na Cultura FM com os jovens alunos da escola. A proposta é aproximar jovens leitores das obras dos autores paraenses. Para homenagear Max Martins, cerca de 10 alunos da Escola Benjamin Constant, gravaram poemas do escritor. O resultado desse trabalho será veiculado nesta segunda-feira, na Rádio Cultura (93,7 Mhz), durante a programação da emissora, e marca as comemorações à Max Martins.

Ela acredita que por meio da apresentação e divulgação da obra de Max entre os jovens é possível torná-los leitores mais exigentes. "Já é tempo de reconhecermos os autores da região e enaltecer suas produções literárias, que de forma alguma deixam a desejar em relação à literatura produzida em outras regiões do país. Existe um circulo vicioso que precisa ser rompido, para que a produção literária paraense possa alçar vôos maiores". 

Assim como para os outros escritores, a obra de Max Martins chama atenção de Salier por seu alto valor intelectual, marcada por fortes influências e marcas de leitura. "Ler Max me permite sempre crescer como leitora. Sinto que a cada encontro que tenho com sua poética, cresce o meu universo de palavras", ressalta. 

Para ela, a obra de Max Martins é de grande contribuição estética para a literatura brasileira, rompendo as barreiras regionais. "Apesar de sua obra ser marcadamente tingida pela ambiência regional, sua escrita alcança a universalidade ao abordar questões de existência que não se fecham na região amazônica. São próprias do ser humano de qualquer espaço geográfico".

Serviço: 

Nesta segunda-feira, a partir das 17h, a Casa da Linguagem.  promove uma roda poética em homenagem à Max Martins. Haverá leituras de poemas, mostra de fotos e vídeos, além do relançamento da coletânea "Impossível não te ofertar", com textos de autores paraenses como Paulo Nunes e Danielle Fonseca, entre outros. O evento é aberto ao público e contará com a presença de alunos e professores da Casa da Linguagem.

A Casa da Linguagem fica localizada na avenida Nazaré, nº31 esquina com avenida Assis de Vasconcelos.