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A paz possível

Nações que foram acossadas por décadas de violências não se reconciliam da noite para o dia


Por: O Liberal Em 11 de outubro, 2016 - 08h08 - Editorial

Nações acossadas por décadas de violências, ódios, medos, mortos e feridos não se reconciliam consigo mesmas do dia para a noite. Não se reencontram com seus valores num abrir e fechar de olhos.

Em regra, remover ódios, ressentimentos, dores provocadas pela perda de familiares e amigos envolve complicadas negociações políticas que podem se mostrar, exitosas na medida em que mecanismos institucionais garantem às partes envolvidas ganhos e perdas equivalentes.

A sociedade colombiana, por cinco décadas, viveu sufocada por violências, ódios, medos, mortos e feridos, resultado de ações das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

O início das hostilidades ocorreu em 1964. A guerrilha sobreviveu a pelo menos quatro grandes campanhas militares de 12 governos diferentes. Em 52 anos, mais de 220 mil pessoas morreram e milhões de campesinos tiveram que se deslocar para outras regiões, tangidos pela fúria de guerrilheiros sempre dispostos a matar primeiro para perguntar depois.

Não chega a ser tão surpreendente, por tudo isso, que o acordo de paz assinado no final de agosto, entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Farc, tenha sido formalmente rejeitado pelo referendo realizado posteriormente.

O que resta como alternativa? Buscar a paz por outros meios e caminhos. Nesse sentido é que o governo colombiano e as Farc concordaram em manter o cessar-fogo e discutir as propostas de ajustes ao acordo de paz, apesar de sua rejeição pelo referendo. O anúncio foi feito na semana passada, quando foi anunciado que o presidente Juan Manuel Santos venceu o Prêmio Nobel da Paz.

Sem fazer referência à recente decisão de Santos de manter a trégua só até 31 de outubro, os dois lados anunciaram um “protocolo” para “prevenir qualquer incidente” enquanto a crise desatada pela consulta é resolvida.

“Reiteramos o compromisso assumido pelas partes de manter o cessar-fogo e de hostilidades bilateral e definitivo decretado em 29 de agosto passado”, segundo comunicado conjunto lido em Havana, sede das negociações de paz.

Depois de quase uma semana de incerteza após o resultado do plebiscito, as Farc e o governo colombiano também concordaram em escutar “os diferentes setores da sociedade” em um processo rápido e eficaz para “definir rapidamente uma saída”. Um mecanismo tripartite formado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o governo e a guerrilha deverá monitorar e verificar o cumprimento do protocolo e as regras que regem o término do confronto armado.

Apesar das resistências, a paz na Colômbia ainda é possível. Mas, para alcançá-la, persistência e flexibilidade política são indispensáveis.