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Começa última etapa deste ano de buscas por restos mortais de guerrilheiros no Araguaia


Em 25 de outubro, 2011 - 19h07 - Amazônia

 

Foram iniciadas esta semana as últimas escavações programadas para este ano pelo Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), equipe do governo federal responsável pelas buscas de restos mortais de guerrilheiros mortos nos anos 70 durante os combates com militares na região da divisa entre o Pará e o atual estado do Tocantins.

 

A equipe é formada por integrantes do Ministério da Defesa, Ministério da Justiça e da Secretaria de Direitos Humanos da presidência da República. Os trabalhos são acompanhados por familiares das vítimas, guerrilheiros sobreviventes e pelo Ministério Público Federal (MPF), por meio do procurador da República em Uruguaiana (RS) Ivan Cláudio Marx, que faz parte do grupo de trabalho da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão denominado Direito à Memória e à Verdade.

 

O procurador da República conta com o apoio da antropóloga no MPF Sandra Amenomori e de um consultor do MPF, Sérgio Francisco Monteiro da Silva, especialista em antropologia forense.

 

A quarta e última etapa de trabalho deste ano, programada para ser concluída no próximo dia 4, está centrada no cemitério de Xambioá (TO), foco principal da expedição por ser o local onde foram encontradas as duas únicas ossadas que confirmadamente são de guerrilheiros e outras que estão sob análise. A suspeita da equipe é que possam estar no cemitério mais de dez ossadas de guerrilheiros mortos no início dos conflitos.



Nesta terça-feira, também foram feitas escavações no terreno da antiga sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Marabá, onde um servidor aposentado da autarquia diz ter avistado um corpo ao escavar o local, em 2004.

 

As escavações são realizadas desde 2009 a partir de decisão da Justiça Federal. Em 2010, decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos também obrigou o Brasil a prestar esclarecimentos sobre as providências tomadas pelo Estado brasileiro para elucidar os assassinatos ocorridos durante o conflito.

 

Desigualdade é única certeza - Além do maior deles, o combate à ditadura militar, denunciar a pobreza no interior do país foi um dos motivos que levaram comunistas a escolherem a região do Araguaia para lançar um movimento armado contra o regime. Nesta segunda-feira, enquanto as equipes do GTA escavavam áreas do cemitério de Xambioá, uma obra realizada em um túmulo ao lado das escavações era testemunha de que a desigualdade ainda é um inimigo bastante vivo.

 

O túmulo estava sendo construído por um professor que precisa fazer bico como pedreiro para sobreviver. “Na verdade, o bico que eu faço é como professor, porque como pedreiro ganho três vezes mais”, diz Rudney Soares Sousa, que dá aulas de língua portuguesa na rede municipal de Xambioá durante as manhãs e, para conseguir criar seus quatro filhos, à tarde complementa o salário de R$ 735 fazendo qualquer tipo de serviço em obras de construção civil.

 

Rudney nasceu em 1973, ano em que começaram as execuções de guerrilheiros na região. Depois de trabalhar anos e anos com serviços braçais, ele decidiu fazer um curso superior para “sair do sol quente”. Não conseguiu. Só não deixa de atuar como professor porque gosta de ensinar. E não são só crianças e adolescentes que podem aprender com o que Rudney tem a dizer. O poder público também poderia prestar mais atenção às palavras do pedreiro-professor. É que não existe hoje nenhum funcionário da prefeitura responsável pelo cemitério, e para resolver isso Rudney aconselha a contratação de um empregado temporário até que um servidor seja nomeado a partir de concurso público.

 

Enquanto isso não ocorre, a utilização do terreno do cemitério fica a critério daqueles que precisarem enterrar seus parentes ou de trabalhadores que fazem as vezes de coveiros. “Em muitos casos esses coveiros abrem buracos onde já há ossos, e enterram os corpos mesmo assim”, conta Rudney.

 

Em meio a dificuldades como essas, familiares e guerrilheiros sobreviventes reivindicam que informações sobre os locais onde os corpos foram enterrados sejam cobradas dos comandantes das Forças Armadas à época do conflito, pois dizem que são muito incertas as referências dadas por moradores do Araguaia e por camponeses que prestaram serviços para o Exército.

 

O cenário das escavações, que nesta segunda-feira tinha como personagem um pedreiro formado em pedagogia, mostrava que uma das poucas certezas hoje no Araguaia é que a guerra contra a pobreza está longe de acabar.

 


Fonte: MPF-Pará