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Ganhar e perder são consequências inevitáveis do esporte


Em 07 de julho, 2010 - 11h11 - Editorial

 

Perder e ganhar faz parte de qualquer esporte, o futebol inclusive.

 


O Brasil já participou de todas as Copas. Ganhou cinco e perdeu as demais. Deveria, por isso, estar mais acostumado a perder do que ganhar.

 


Mas não. Por aqui, ainda prevalece aquela ideia de que vitórias devem ser festejadas em meio a feriados nacionais e exaltações patrióticas incomparáveis, feéricas.

 


As derrotas, ao contrário, são momentos em que se execram atletas e se atiram no lixo valores mínimos - como a tolerância e a sensatez - que tornariam digna uma derrota.

 


É por isso que, no Brasil, não há derrota sem culpados. A primeira coisa que se faz, quando o Brasil perde uma Copa, é eleger um ou vários culpados. Neles é que se despejam todas as frustrações.

 


Mas nem sempre é assim.

 


Nem sempre derrotas são tratadas como se fossem derrotas. Há derrotas que se transformam em vitórias. Isso não ocorre em países fictícios, longe de nossas fronteiras. Ocorre perto de nós.

 


Ocorreu na Argentina, por exemplo.

 


O selecionado argentino foi um dos melhores do Mundial que se disputa na África do Sul. Jogou futebol dos mais brilhantes, dos mais vistosos. Até que veio a Alemanha e destroçou os argentinos. Aplicou-lhes uma goleada humilhante. Transformou a brilhante seleção num timeco de várzea. E tanto é assim que se a partida demorasse mais uns dez minutos, o placar poderia ser o mais avassalador de todas as Copas.

 


Humilhados, cabisbaixos, destroçados, abatidos e derrotados, os jogadores da Argentina voltaram ao País.

 


Foram recebidos com festa em Buenos Aires. A presidente da República convidou o treinador e seus comandados a visitar a Casa Rosada, sede do governo. Disse ainda que se sentiu duplamente orgulhosa de ser argentina ao presenciar a grande recepção dos torcedores à seleção em Buenos Aires.

 


'Quando vi todos esses argentinos que foram receber nossa seleção, senti duplo orgulho de ser argentina, pelos que estiveram na África do Sul e pelos milhares de argentinos que estão nas boas e nas más horas, como sempre é preciso estar. Quero que nossa seleção vá à Casa Rosada. Ontem (domingo) os convidei e os meninos diziam que não mereciam isso. A verdade é que acho que estão equivocados: têm todo o merecimento para ir e estarei esperando-os'.

 


Isso foi lá. E aqui?

 


Por aqui, o Brasil foi derrotado. Jogou um futebol mediano para os padrões nacionais? Jogou. Mas alguém esperava que jogasse mais do que isso? Presume-se que não.

 


O Brasil foi eliminado porque perdeu. Perdeu para uma seleção qualquer? Não. Foi humilhado como a Argentina? Também não.

 


Mas eis que o Brasil volta pra casa. Em alguns casos, foi preciso mobilizar seguranças para dar proteção aos eleitos como culpados. Na internet, sobretudo no Twitter, mensagens de claro incentivo à violência contra os atletas e membros da comissão técnica se disseminaram. E a Imprensa, em boa parte, se encarregou de divulgar essas reações como se expressassem a 'justa indignação' dos brasileiros contra um revés sofrido em competição mundial.

 


Isso é muito perigoso. É uma conduta que transmite principalmente às gerações mais jovens a percepção de que ganhar, ganhar e ganhar é o que importa. Em contrapartida, fica a mensagem subliminar de que perder é vergonhoso, desonroso. É algo que deve ser punido com a execração, com a ofensa, com o soco e com o desprezo absoluto ao derrotado.

 


Não se pode permitir que essas percepções perdurem.

 

 

A Seleção Brasileira teve seus erros - muitos, aliás. Apontá-los é necessário. Encobri-los seria intolerável.

 

 

Mas apontar erros é uma coisa. Outra coisa é fazer deles apenas um motivo para dar vazão a sentimentos de exclusão incompatíveis com situações banais em qualquer esporte.

 


E em qualquer esporte, é banal ganhar e perder. Parece que só no Brasil é que não. 

 

Fonte: O Liberal