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A coerência no lixo, debate vira acerto de contas


Em 30 de junho, 2010 - 09h09 - Editorial




Em vários Estados do País, instâncias partidárias locais se rebelam contra decisões das cúpulas das legendas.

 


Em Santa Catarina, por exemplo, a Executiva Regional do PMDB ingressou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com mandado de segurança contra decisão da Executiva Nacional do partido, que deu oito dias de prazo para apresentação de defesa em pedido de intervenção no Diretório Estadual.

 


A disputa entre os peemedebistas é decorrente de alianças formalizadas para a eleição de outubro. O diretório catarinense quer uma coisa coisa, o Diretório Nacional quer outra.

 


O mesmo TSE também recebeu outro mandado de segurança. Foi impetrado por filiados do PT no Maranhão, que pretendem anular resolução do Diretório Nacional do partido que decidiu apoiar a candidata do PMDB nas eleições para o cargo de governador do Estado.

 


Os autores da ação alegam que, na condição de filiados, tiveram seus direitos  subjetivos violados, 'afetando as suas condições de elegibilidade e, por consequência, o processo eleitoral'. Sustentam ainda que, anteriormente à decisão da direção nacional petista, em encontro realizado no Maranhão, em março passado, os delegados do partido decidiram pela coligação com o PSB e o PCdoB.

 


No pedido, os petistas afirmam que o órgão nacional de direção do PT 'resolveu ignorar deliberação da instância regional e aprovar uma coligação estadual majoritária' e praticou um ato de vontade, 'pretendendo estabelecer uma autêntica ditadura partidária'.

 


O que esses dois casos demonstram? Na prática, demonstram que na política, como em tantas outras circunstâncias fora dela, deve prevalecer aquela  máxima: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

 


E quando as determinações, e quando as ordens precisam ser seguidas de qualquer maneira? Não importa: na política, continua mandando quem pode e obedecendo quem tem juízo.

 


E quando as ordens emanadas da cúpula representam uma descaracterização completa e absoluta do perfil partidário? Ainda assim, continua a prevalecer a máxima: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

 


Até os ingênuos - que não são propriamente ingênuos, mas teimam em exibir-se como tais - sabem amplamente que, na política, as conveniências é que fazem a hora, é que indicam os rumos dos partidos definem estratégias.

 


Nessas circunstâncias, aliados de ontem são os adversários de hoje, inimigos de ontem são os aliados de hoje.

 


Não espanta, por isso, que gente antes chamada de ladrão, de bandido, de oportunista e demagogo passe a ser tratada com todas as loas e todas as honras pelos antigos acusadores.

 


Como fica a coerência, em situações como essa? Atire-se a coerência à lata de lixo. É o que ensinam os manuais de péssimas maneiras adotados nas articulações político-eleitorais.

 


E a preocupação com o eleitor? Da mesma forma, é ignorada, é desprezada, é relegada a plano mais do que secundário. É jogada no lixo.

 


As consequências disso são evidentes.

 


Primeiro, aumenta a descrença dos eleitores, que nem sabem mais quem é quem, durante um jogo partidário cujas peças são constantemente modificadas.

 


Segundo, os partidos políticos vão ficando cada vez mais distantes de adotar uma identidade que os caracterizem como instância que verdadeiramente expressa as aspirações, os anseios populares.

 


Terceiro, o embate político-eleitoral perde qualidade, uma vez que a única coisa que passa a interessar é o voto,  independentemente das circunstâncias.

 


Quarto, a perda de qualidade no embate político-eleitoral transforma os pleitos numa oportunidade para que adversários, à falta de temas de relevância para debater, se limitem a acertar contas uns com os outros. Daí para a baixaria é sempre um passo.

 


Mas, afinal, quem estará verdadeiramente empenhado em elevar o tom das campanhas eleitorais?

 


Fonte: O Liberal