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Resistência à tecnologia é obstáculo para o futebol


Em 29 de junho, 2010 - 09h09 - Editorial



A Fifa, entidade que dirige o futebol no mundo inteiro, tem razões que a razão desconhece. E se duvidarem, a Fifa tem razões que até mesmo a própria Fifa desconhece.

 


A tecnologia chegou para facilitar a vida de todo mundo. E chegou para fazer, de qualquer esporte, atividade em que a precisão contribui para torná-lo mais lúdico e mais agradável.

 


No tênis, nos lances em que há dúvidas se uma bola arremessada tocou em cima da linha ou fora dela, o atleta tem o direito de pedir que o telão tire a dúvida. E na mesma hora o telão esclarece tudo.

 


Nos hipódromos, as corridas são monitoradas por chips que apontam diferenças milimétricas entre os cavalos que chegam ao final da prova.

 


Nas pistas de atletismo, a mesma coisa: o computador é fundamental para eliminar quaisquer dúvidas sobre quem chegou em primeiro.

 


No futebol, todavia, tudo continua na mesma há décadas, desde que esse tipo de esporte foi inventado.

 

Os tempos passam, os costumes mudam, a tecnologia se aprimora, os instrumentos de precisão estão, como o próprio nome indica, cada vez mais precisos, mas nem por isso a Fifa se digna cair nessa nova realidade.

 


Na Copa do Mundo de 1966, portanto há 44 anos, Inglaterra e Alemanha disputaram a final da Copa. Os ingleses tiveram validado, a seu favor, um gol que em verdade não existiu. A bola tocou no travessão e depois em cima da linha. Nessa época, nem a televisão dispunha dos recursos de que dispõe hoje para mostrar o lance em vários ângulos. Mesmo assim, todos viram que não foi gol.

 


Nesta Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, Inglaterra e Alemanha disputaram partida decisiva pelas oitavas de final. A Inglaterra fez um gol claro, legítimo. A bola entrou 33 centímetros na meta do goleiro da Alemanha. O estádio inteiro viu que foi gol. O mundo inteiro viu que foi gol. Até a Fifa, com a mais absoluta certeza, viu que a bola entrou.

 


Mas o gol não foi validado. E poderia sê-lo na mesma hora, eis que nos estádios há 32 câmeras instaladas. Além disso, há o recurso da câmera lenta que não deixa qualquer dúvida em lances capitais. E acrescente-se o telão disponível no estádio. Mas a Fifa proíbe - inacreditavelmente proíbe - que lances polêmicos como esse sejam repetidos.

 


Qual é o argumento utilizado pela Fifa e por tantos que se dizem amantes do futebol? O argumento básico é o de que o emocionante do futebol está na polêmica, na discussão, no debate, nas discordâncias que muitos lances ensejam. Esse é um argumento implausível. É um argumento de inconsistência hilariante. Até parece que, no dia em que a tecnologia mostrar que um gol foi mesmo gol, vai acabar a graça de assistir a jogos de futebol.

 


Até parece que a tecnologia, no dia em que for utilizada e mostrar que um gol inexistente não pode ser validado, os torcedores - ou amantes do futebol - não terão mais o que discutir no dia seguinte.

 


Esse argumento da Fifa, além de ser implausível, inconsistente e hilariante, esconde um risco - um enorme risco: o de que a resistência ao uso da tecnologia para desfazer dúvidas represente um estímulo para que a má-fé prevaleça.

 


Em princípio, não se pode dizer que o árbitro que comete um erro tão escandaloso, como o gol não validado da Inglaterra, tenha agido por máfé. No momento do lance, ele poderia, por exemplo, estar com a visão encoberta.

 


Mas, independentemente das intenções do árbitro e das circunstâncias em que ocorrem lances polêmicos, a ajuda da teconologia é indispensável para afastar qualquer dúvida, em benefício da transparência das competições.

 


Enquanto a Fifa insistir em rejeitar a tecnologia como um meio essencial para eliminar dúvidas em lances polêmicos, o futebol continuará como uma modalidade esportiva que teima em continuar no atraso. Por culpa, ressalte-se, da própria Fifa.

 


Fonte: O Liberal