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Editorial: Autoritarismo desmedido


Em 24 de junho, 2010 - 08h08 - Editorial



Os astros, as estrelas, as celebridades de um modo geral são referências para milhares, milhões de pessoas. Para o bem e, infelizmente, para o mal.

 


Astros, estrelas e celebridades que atuam em qualquer esporte são referências ainda mais fortes, porque atividades esportivas geralmente são relacionadas a práticas saudáveis.

 


É intolerável, portanto, que um astro, uma celebridade, um desportista de renome seja flagrado em práticas incondizentes com os bons exemplos que precisa transmitir.

 


Ninguém haverá de imaginar, é evidente, que as celebridades da área esportiva sejam perfeitas. E não o são simplesmente porque são seres humanos, sujeitos a imperfeições, a falhas, a erros. Como todo e qualquer ser humano.

 


Mas é evidente, por outro lado, que sobre desportistas renomados recaem exigências e requisitos que os diferenciam justamente porque têm projeção, porque são profissionais de renome e porque, enfim, precisam dar bons exemplos, descontada, repita-se, a falibilidade inerente à condição humana.

 


O técnico Dunga, da Seleção Brasileira que disputa o Mundial da África do Sul, é uma celebridade. Nessa condição, tem requisitos exemplares, tem credenciais positivas a apresentar.

 


Se como jogador ele nunca foi um craque, e não foi mesmo, em contrapartida sempre mostrou disciplina, respeito à hierarquia, fidelidade absoluta aos clubes e à própria Seleção Brasileira, pelos quais atuou.

 


Seu perfil de homem, de ser humano, de cidadão justificou plenamente que fosse indicado para o cargo de treinador, que ocupa hoje. Como treinador, Dunga também surpreendeu. Inicialmente, tudo indicava que não daria certo. Mas deu. Imprimiu um padrão de jogo que, gostem ou não os milhões de entendidos em futebol, tem sido vencedor. E tanto é assim que a Seleção Brasileira se classificou sem atropelos para esta Copa e, antes disso, conquistou a Copa das Confederações.

 


Mas esses bons exemplos que Dunga tem a oferecer são mesclados com maus exemplos que ele se esmera em exibir em público. E o faz, ao que parece, com prazer desmedido. O que também surpreende numa pessoa como ele, uma celebridade que ocupa funções que têm uma enome projeção.

 


Há poucos dias, Dunga surpreendeu o Brasil inteiro - para não dizer o mundo inteiro - ao proclamar, por balbucios claramente inteligíveis, palavrões dos mais pesados.

 


O alvo de suas grosserias, cometidas durante entrevista coletiva a que estavam presentes jornalistas de todo o mundo, era um repórter que, com um mero meneio, um mero balançar de cabeça, discordava de uma afirmação do treinador.

 


Foi o bastante para que Dunga não apenas interrompesse o que estava dizendo para interpelar diretamente o repórter como passasse, a partir daí, a proferir palavras imundas, que qualquer menor de idade pôde perceber claramente.

 


Por que o treinador fez isso? Porque ele pode saber tudo de futebol, mas nada entende de jornalismo.

 


Dunga não sabe qual é o papel da Imprensa. Seu lado autoritário, que nele não ocupa propriamente um lado, mas o corpo inteiro, não lhe permite distinguir a crítica fundamentada daquela que tem um viés pessoal.

 


O lado autoritário de Dunga não lhe permite perceber que, no futebol, não existe unanimidade. E tanto é verdade que nem Pelé, o maior jogador do mundo em todos os tempos, não desfruta de unanimidade nessa conceituação.

 


O lado autoritário do treinador da seleção não lhe permite exibir a serenidade que ele precisaria ter, no exercício de um cargo como o que ocupa. O lado autoritário de Dunga, enfim, é uma bola fora, jogada para a linha de fundo. É uma bola desperdiçada. É um pênalti chutado pra longe. É um lance faltoso, com carrinho e tudo o mais.

 


Tomara que os maus exemplos de Dunga não se disseminem. Tomara que todos apreendam apenas os seus bons exemplos.

 

 

Fonte: O Liberal