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Editorial: Culturas inapagáveis


Em 23 de junho, 2010 - 08h08 - Editorial




Não é sem razão que Belém, muitas vezes, é tida como a terra do já teve.

 


Quando se menciona Belém como a terra do já teve, não se pode dissociar essa ideia de uma outra: a de que toda cidade tem de preservar a sua memória.

 


Não apenas isso, porém. Além de zelar por sua memória, além de disponibilizar meios que permitam o resgate de informações históricas relevantes, toda cidade precisa preservar a memória presente, de hoje, de agora. Tem por dever preservar hábitos e costumes saudáveis que a identificam, que a individualizam, que a tornam especial, atrativa e prazerosa.

 


Essa tarefa não cabe apenas ao Poder Público, é evidente. Essa tarefa também compete à sociedade. É preciso que todos os segmentos, indistintamente, façam confluir,convergir, direcionar suas vontades para o objetivo maior de manter vivas as tradições e quantos traços culturais existam e se projetam como elos indissociáveis entre a cidade e aqueles que vivem nela.

 


Todavia, se o Poder Público não está sozinho nessa tarefa, a sua responsabilidade se sobrepõe às demais, seu papel tem maior relevância que o de qualquer outra instância.

 


E a condição do Poder Público de funcionar como indutor de procedimentos, hábitos e práticas que preservem a cultura, as tradições e a memória de uma cidade é essencial. Tal essencialidade se deve a um motivo simples, mas evidente: o Poder Público é que detém poderes legais, inclusive e sobretudo o poder de polícia, para disciplinar atividades de forma a integrálas no dia a dia da população.

 


Pois é justamente aqui, na faculdade de agir em benefício da coletividade, que talvez esteja havendo uma falta de sintonia entre as atibuições indelegáveis do Poder Público e a necessidade de preservar situações que façam com que Belém seja identificada e individualizada, de fato, como Belém.

 


Não temos mais por aqui, por exemplo, o hábito de comer caranguejo. Ficou proibido comê-lo. Seu consumo passou a ser vetado, proscrito, contrário a orientações administrativas. Num momento, alegou-se que a proibição decorria do período de defeso. Em outro momento, argumentou-se que era indispensável a observância de condutas que garantissem a higiene no consumo do crustáceo.

 


Enquanto isso acontece por aqui, daqui mesmo o caranguejo é exportado é consumido sem maiores solenidades em outras capitais do Brasil, em restaurantes de excelência reconhecida até por especialistas. É o caso de algumas casas situadas em Fortaleza (CE) e Salvador (BA), que servem caranguejo livremente.

 


Tem mais. O tacacá sempre foi um dos símbolos de Belém. Os que vêm à cidade e não tomam o tacacá é como se não a tivessem visitado. Os que vêm de fora podem até não gostar da bebida, mas prová-la é tão essencial como ir a Roma e ver o Papa, ir a Paris e subir na Torre Eiffel, ir a Nova York e visitar a Estátua da Liberdade.

 


Pois agora, ultimamente, há uma apreensão generalizada de que restrições impostas para atender ao Código de Posturas impeçam várias bancas de tacacá tradicionais de Belém de continuar funcionando.

 


Restrições idênticas estão afetando bancas que vendem revistas e jornais, entre outras publicações. Impor-lhes condições que inviabilizam o seu funcionamento mal consegue disfarçar a intenção deliberada de impedir a sobrevivência de um micronegócio que garante o sustento de centenas de famílias.

 


É preciso, convenhamos, disciplinar o uso do espaço urbano, em benefício do bem-estar geral. Mas é preciso fazê-lo com agudo bomsenso, para que Belém, a que já teve o bonde, a que já teve os seus coretos, a que já teve o Grande Hotel, a que já teve tantos prédios históricos não se transforme na Belém que já teve o tacacá, já teve o açaí, já teve o caranguejo degustado livremente e já teve, enfim, as suas bancas de revista.

 

 

Fonte: O Liberal