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O debate eleitoral no Brasil está atrasado


Em 22 de junho, 2010 - 12h12 - Editorial


 


O atraso é de séculos em relação aos países mais avançados do Primeiro Mundo e de décadas em relação ao próprio Brasil.

 


No Brasil, a privatização, por incrível que pareça, ainda é motivo de polêmica. Não deveria sê-lo jamais, em tempo algum. Mas é.

 


E o debate sobre assunto se faz num nível preocupante: os que consideram a privatização uma necessidade, em benefício da própria socidade, são pintados como entreguistas; os demais, que a condenam, são colocados nos pedestais, como defensores do nacionalismo mais edificante.

 


O resultado desse maniqueísmo estapafúrdio, caolho, desconectado da  realidade é a falta de debates que sejam realmente esclarecedores,
sobretudo em períodos eleitorais como o que estamos vivendo.

 


Prevalecem, nesse sentido, a especulação, a desinformação, o despropósito e o passionalismo, não necessariamente nesta ordem.

 


Agora mesmo, o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, passou por uma sabatina em São Paulo (SP).

 


Questionado sobre se há espaço para mais privatizações no País, disse “não ver muito”, negou qualquer intenção de privatizar a Caixa Econômica Federal ou o Banco do Brasil e defendeu que o governo tenha instrumentos para atuar no mercado financeiro.

 


Voltou a criticar os empréstimos públicos feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para a fusão de empresas privadas, e garantiu ser um defensor do banco estatal. Defendeu ainda o modelo paulista de concessão de rodovias à iniciativa privada e lembrou que as duas estradas federais que passam por São Paulo, a Régis Bittencourt e a Fernão Dias, são as piores do Estado. “Em São Paulo, 75% dos usuários consideram as estradas (estaduais) paulistas boas ou ótimas. Das dez melhores estradas do Brasil, todas são paulistas”, acrescentou.

 


A exposição do candidato tucano sobre o assunto seria desnecessária  se a privatização, como ele mesmo observou, não fosse tratada em tons terroristas, como se de um lado estivessem os defensores da Pátria, ciosos da necessidade de preservar intacto o patrimônio público, e de outro lado os seus traidores, dispostos a abrir mão de empresas e quaisquer equipamentos públicos por qualquer tostão, a preços menores que o preço de bananas vendidas nas feiras livres.

 


Isso não tem sentido. Aliás, se o debate realmente tivesse de se situar no nível do passionalismo, seria o inverso: a rigor, os que preferem a preservação de nichos para alimentar esquemas políticos perniciosos e preservar um Estado sempre generoso para gastar dinheiro com inutilidades, esses sim, é que poderiam ser considerados como os inimigos da Pátria.

 


Por quê? Por uma razão simples: é preciso enxugar o Estado, eximi-lo de gastos supérfluos, forçá-lo a deixar com a iniciativa privada atribuições típicas de particulares, para que justamente o Estado possa dispor de meios eficientes e eficazes para atuar em áreas que não devem ser abertas à iniciativa privada.

 


É o caso da saúde pública, por exemplo.

 


Sua precariedade é flagrante. É uma visão deplorável a de pessoas idosas madrugando nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS) para marcar uma simples consulta. É horrível a situação de pronto-socorros por este Brasil afora. É horrorosa a situação de hospitais que poderiam estar bem melhor equipados para cuidar da saúde de pessoas humildes, que não dispõe de recursos para pagar médicos particulares.

 


Quanto mais o Estado for desobrigado de bancar atividades que poderiam ser transferidas à iniciativa privada, mais sobraria dinheiro para o Estado firmar-se como o agente responsável para prover o bem-estar geral.

 


Mas isso, infelizmente, pouca gente percebe. Por isso é que o debate eleitoral está atrasado há décadas, ou melhor, há séculos.

Fonte: O Liberal