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Editorial: A pirotecnia do tudo ou nada


Em 15 de junho, 2010 - 08h08 - Editorial



O processo inteiro de construção da hidrelétrica de Belo Monte, na região do rio Xingu, em Altamira, tem proporcionado situações que variam do racional à mais absoluta, à mais pura, à mais genuína irracionalidade.

 


Desde a concepção do projeto até o procedimento licitatório, responsável pela seleção do consórcio que vai construir o empreendimento, estão demarcados perfeitamente os limites entre o contraditório que se opera dentro da legalidade e aquele que desborda, que ultrapassa esse âmbito e ingressa no campo do passionalismo mais condenável e inconsequente.

 


Belo Monte não é uma ficção. É uma realidade. Além disso, não será construída numa terra de ninguém. Ao contrário, está sob o controle de várias esferas, inclusive do Poder  Judiciário, acionado constantemente para decidir sobre incidentes processuais de natureza variada.

 


Era de se supor, por isso, que todos os segmentos sociais, independentemente de suas convicções, de suas preferências, de suas orientações ideológicas, se curvassem à legalidade. Mas não é o que acontece.

 


Há segmentos insatisfeitos, inconformados, relutantes, resistentes à construção da  hidrelétrica.

 


O que há de errado nisso? À primeira vista, nada, eis que a divergência em qualquer sociedade democrática é legítima.

 


Mas quando as insatisfações, inconformidades, relutâncias e divergências estão à margem da lei, aí então se tornam condenáveis.

 


Assim é que, variando do racional ao irracional, do racional ao passional, da insatisfação legítima à contrariedade externada de forma inaceitável, Belo Monte tem oferecido alguns cenários.

 


Antes da realização do edital para escolher o consórcio que vai construir a usina, várias liminares tentaram barrá-lo. Essa é uma relutância absolutamente legal e legítima.

 


Mas durante esse período, manifestantes despejaram toneladas de esterco em frente a órgãos públicos, em Brasília. Esse foi uma relutância irracional, deplorável, condenável.

 


Em várias fases que antecederam o edital, tentou-se suspender por vias judiciais os procedimentos para a concessão do licenciamento ambiental. Essa foi uma relutância das mais legais e legítimas.

 


Durante esse mesmo período, entidades ambientalistas ameaçaram, em diversas oportunidades, mobilizar tribos indígenas e comunidade ribeirinhas para inviabilizarem o empreendimento, ignorando riscos de agressão à integridade física dos manifestantes. Eis aí, configurada, uma relutância deplorável, condenável.

 


Agora mesmo, o discurso irracional, radical e passional, portanto deplorável e condenável, está de volta.

 


Representantes de certos segmentos, inclusive tribos indígenas assentadas na área de inflluência a ser alcançada pela usina de Belo Monte, têm externado advertências explícitas de que estariam dispostos a barrar o empreendimento de qualquer maneira, de qualquer jeito, usando quaisquer métodos que entendam necessários, inclusive aqueles que o bom senso e a moderação rejeitam como inconsequentes e as leis afastam por flagrantemente ilegais.

 


Estamos todos diante da pirotecnia do tudo ou nada, da pirotecnia do vale-tudo, da pirotecnia de um exibicionismo perigoso que afronta as leis, o bom-senso e a racionalidade.

 


Esse discurso de que é preciso conscientizar segmentos da população sobre os seus direitos não engana mais. E não deixa a menor dúvida: esse discurso não pretende conscientizar ninguém sobre coisa nenhuma.

 


Ao contrário, pretende mesmo é estimular, incentivar, insuflar cidadãos a externar seus supostos anseios por meio de instrumentos que desafiam a segurança de todo mundo.

 


Assim como é natural que um empreendimento do porte de Belo Monte não tenha a concordância unânime, da mesma forma é intolerável que seus opositores, no propósito de barrá-lo, ignorem afrontosamente as leis.

 

 

Fonte: O Liberal