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Editorial: Credibilidade indispensável


Em 11 de junho, 2010 - 08h08 - Editorial



As relações entre países precisam se estribar na credibilidade mútua.

 

As relações individuais entre pessoas, ao contrário, podem até não exigir a credibilidade como requisito indispensável para que se estabeleçam, eis que simpatias e sentimentos mais íntimos muitas vezes dispensam outros fatores que dão equilíbrio ao relacionamento.

 

Mas dois países não podem firmar parâmetros de convivência frutuosos se um não acreditar no outro, se um desconfiar permanentemente que o outro está de alguma forma contrariando compromissos formalmente celebrados.

 

É o caso do Irã.

 


Poucos ainda acreditam que esse país seja capaz de dar um passo sequer em direção à paz.

 

Poucos acreditam que o governo iraniano tenha disposição real, evidente, factualmente comprovável de promover esforços que impeçam o desenvolvimento de artefatos nucleares quaisquer que sejam.

 

Poucos acreditam que o Irã, enfim, seja capaz de cumprir o que assina.

 

Entre os poucos que acreditam, incluem-se o Brasil e a Turquia, que em maio passado intermediaram a assinatura de um acordo pelo qual o Irã manifestava o firme compromisso de se enquadrar em disposições internacionais que proíbem o desenvolvimento de armamentos nucleares.

 


O Irã, pelas vozes de seus dirigentes, não apenas disse verbalmente que cumpriria o acordo como deixou consignado, por escrito, que se submeteria a exigências básicas formuladas pela Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA).

 


Mas isso não bastou. Ninguém acreditou no Irã, à exceção do Brasil, da Turquia e de alguns poucos países.

 


Por quê? Porque há precedentes. Um deles é o discurso presidente Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano que já afirmou e reafirmou, reiteradas vezes, o anseio de varrer Israel do mapa.

 

Não foi nem preciso perguntar ao dirigente iraniano se é possível varrer um país - pequeno que seja, como Israel - do mapa com uma vassoura ou com armas atômicas.

 


A pergunta - de tão óbvia - é tão descabida quanto declarações como as formuladas pelo presidente iraniano.

 


Por não acreditarem nas disposições de paz anunciadas pelo governo de Ahmadinejad, os países que integram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram mais um rol de sanções ao Irã.

 


Dos 15 membros do Conselho, 12 votaram a favor das sanções, um deles, o Líbano, se absteve e apenas dois, Brasil e Turquia, votaram contra a adoção do pacote.

 


As sanções incluem, entre outras coisas, a proibição de que o Irã compre várias categorias de armas pesadas, incluindo helicópteros de ataque e mísseis.

 

Além disso, pede que todos os países inspecionem, em portos e aeroportos dentro de seus territórios, cargas suspeitas de conter itens proibidos a caminho do Irã ou vindos do país.

 


Determina ainda que os membros da ONU bloqueiem transações financeiras e o licenciamento de bancos iranianos se suspeitarem de vínculos entre as instituições e atividades nucleares.

 


Um dos anexos das sanções aprovadas relaciona 40 entidades que devem ter seus bens congelados. Entre elas, estão 15 controladas ou ligadas à Guarda Revolucionária que, segundo alguns analistas, está no comando do atual governo iraniano, em uma aliança com o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

 


Javad Rahiqi, o chefe da central nuclear de Isfahan, um dos lugares onde há enriquecimento de urânio, é única pessoa física presente no anexo.

 

Quais as consequências da imposição dessas sanções? Várias, uma delas mais visível: o Irã, pelo menos no discurso, indicará claramente que não vai se dobrar à decisão do Conselho de Segurança da ONU. Se realmente confirmar na prática o que disser no discurso, fatalmente será alvo de mais sanções.

 


E assim será, até que o Irã ofereça demonstrações expressas de que tem credibilidade, que é essencial nas relações internacionais.

 


Fonte: O Liberal