02 de outubro, 2014 - Belém

Último dia


Nos últimos dias, andei refletindo sobre como, às vezes (ou quase sempre), a convivência humana é tão dramática e pouco fraterna. Por diferentes meios de comunicação, assisto a guerras, violências, divisões, brigas, ódios, desconfianças, preconceitos e, diante de tudo o que vejo, eu me pergunto: como reverter essa situação? Como viver em um mundo mais fraterno? Será que isso é impossível? Será que Deus está enganado? A proposta de Jesus é ilusória? Vou contar uma história que, talvez, possa esclarecer como as pessoas poderão almejar, verdadeiramente, a fraternidade, já nesse pequeno planeta terra. 

Um dia, dois senhores, depois de tantos anos de hostilidades, ameaças e lutas para tentar se destruir, acharam por bem se encontrar para ver como poderiam acabar com os conflitos que tanto estavam desgastando-os, provocando-os dia e noite. Um inferno. No entanto, havia um pequeno pormenor em tudo isso: quem ajudaria a fazer essa mediação, visto que não se falam? Como concretizar esse desejo? Depois de certo tempo, cada um, caindo em si, reconheceu que eram também cristãos e, então, pediram a um religioso, conhecido por ambos, para ajuda-los a fazer tal encontro e tentar acabar com a ‘guerra à distância’ entre eles. 

A sede para ter uma vida de paz era grande. Nenhum dos dois aguentava mais viver em guerra. O religioso, com maior prazer, aceitou o convite para ser o mediador da paz. Qual foi a primeira atitude dele? Conhecê-los melhor, individualmente, a partir de um encontro com cada um separadamente. Após de ter feito isto, e visto a disponibilidade dos dois em encontrar uma saída para o conflito, achou por bem marcar outro encontro em uma pequena igreja, onde havia um crucifixo do tamanho da parede. Era o entardecer do dia, e eis que os dois se sentaram na cadeira, um à direita e outro à esquerda do mediador. 

Nenhum dos dois tinha coragem de se encarar, tanto menos de iniciar a fala. Aí, o religioso, depois de um tempo de profundo e abissal silêncio, perguntou-lhes: “Se Deus disser que a vida de vocês termina hoje, o que vocês iriam fazer de imediato?”  Os dois começaram a se olhar timidamente e, logo em seguida, suspirando a fundo, se deram as mãos. Ambos, quase em simultaneamente, acrescentaram: “por que tudo isso? Por que tanta guerra entre nós? O que ganhamos com tudo isso? O que vamos levar conosco perante Deus, depois dessa existência terrena? Dinheiro, poder, reconhecimentos, medalhas? Nada de tudo isso!”

Então, um disse: “Seremos nu como nascemos, sem nada”. E o outro acrescentou: “Nada dessa materialidade do mundo nos poderá acompanhar, aliás, nos tornaremos iguais e teremos a mesma cova.” Depois de escutar tudo isso, o religioso lhes disse: “A nossa vida não termina aqui, mas vai continuar definitivamente com Deus. Portanto, vos pergunto: querem continuar do mesmo jeito que levaram a vida de vocês até agora? Ou querem ensaiar uma vida de fraternidade para garantir uma vida que nunca se acaba depois?” Os dois, prontamente, responderam: “Como fazer tudo isso, uma vida de fraternidade, se até agora fomos inimigos? Gostaríamos de fazer isso, mas temos medo que essa longa experiência de férrea hostilidade nos prejudique nessa nossa vontade de mudança!”

Aí, o eminente religioso, olhando para aquele crucifixo da parede da igreja, disse: “tudo é possível.” Logo em seguida, fitou-os e falou de maneira bem pousada: “Considerem o dia que se transcorre como se fosse o último da vida de vocês. Portanto, precisam aproveitar ao máximo para se entender um ao outro da melhor maneira possível!” Os dois se levantaram junto ao religioso e disseram: “Sabe lá se hoje é o nosso último dia, e , sendo assim, é muito bom se unir.” Logo em seguida, abraçaram-se lagrimando, pedindo desculpa um ao outro, e se comprometeram em se ajudar; aliás, marcaram logo um encontro para confraternizar com as duas famílias e concluíram: “Quanto tempo jogamos fora em ódio e tristeza!” 

Essa história real nos abre os olhos para a verdadeira sabedoria da vida ensinada por Jesus: para viver como verdadeiros irmãos, devemos sempre nos lembrar de agir no cotidiano como se fosse o último dia da vida. Desse jeito, podemos relativizar os absurdos das nossas aspirações de egoísmo, de ódio, de querer mais que os outros, e, assim, intensificar uma convivência serena e fraterna.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net