07 de janeiro, 2016 - Belém

Somos sedentos de liberdade e paz


Quem não quer ser livre e viver em paz? Esse é o desejo de cada um. Na Bíblia, o salmo 130 nos diz: “Cântico das peregrinações. De Davi. Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas nem coisas superiores a mim. Ao contrário, mantenho em calma e sossego a minha alma, tal como uma criança no seio materno, assim está minha alma em mim mesmo.Israel, põe tua esperança no Senhor, agora e para sempre”. 

O autor desse salmo invoca o Senhor Deus para obter um coração não orgulhoso e tanto menos arrogante, parecido a uma criança tranquila e sossegada no seio materno. Sentir-se seguro, pelo carinho e leite da mãe. O sorriso da mãe é conforto para toda hora e, sobretudo, para momentos menos confortáveis e machucados. Apertado ao colo da mãe, experimenta a intimidade do amor da mãe esquecendo totalmente o mundo que lhe está ao seu redor. Um mundo de invejas e grandezas. 

Nesse sentido, o salmista descreve a cena da criança ao colo da mãe como imagem para acalentar a nossa experiência relacional com Deus. Essa intimidade da criança com a mãe deve ser parecida a nossa intimidade com Deus. Nessa experiência que podemos evitar o orgulho e a soberba, que estraga a nossa vida. Evitando esse perigo, é natural que a humildade encontre espaço na vida do ser humano. A verdadeira humildade não é sinônima de renúncia e mediocridade; de fraqueza e pusilanimidade, mas, sim, de experiência de confiança em Deus que acolhe e protege. De um Deus que nos conforta e protege. Um Deus que nunca nos abandona. 

Fazer essa experiência de proteção divina, de carinho de Deus, é fazer experiência de humildade. Por isso, precisamos pensar, meditar que a paz, tanto desejada pela humanidade, é também uma conquista derrubando a tentação da soberba e do orgulho humano que tanto ameaçam a nossa convivência. Assim se faz espaço à humildade. Assim sendo, conforme o salmo nos diz, o ser humano faz uma experiência de paz porque se sente acolhido e amado por Deus e por sua vez se livra de qualquer vício humano que o prende a si, não lhe permitindo de sair de si. 

A confiança da presença de Deus lhe dá serenidade e segurança. Como a criança se sente tranquila porque é protegida e mimada pela mãe, assim o ser humano se sente tranquilo e sereno porque é amado por Deus. Para compreender melhor isso, essa consolação de Deus, o profeta Isaias nos descreve o que o Senhor diz: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca.” (49,15)  

“Pois eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio, e como uma torrente transbordante a opulência das nações. Seus filhinhos serão carregados ao colo, e acariciados no regaço. Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados em Jerusalém.” (66,12-13)

“Porque aqui está o que disse o Senhor Deus, o Santo de Israel: É na conversão e na calma que está a vossa salvação; é no repouso e na confiança que reside a vossa força. Porém, sem nada querer ouvir.” (30,15) É o abandono em Deus, segundo o salmista, que nos proporciona a verdadeira liberdade e paz. A presença de Deus. Sentir-se amados por Deus gera, portanto, serenidade, tranquilidade e paz. Então, segue rapidamente pela minha mente a experiência de Jesus o Cristo. 

Um Jesus Menino, Filho de Deus, que se deixa acolher no colo de Maria, cheio de ternura, nos faz refletir a sacralidade da ternura e o carinho de Deus para conosco. O testemunho de Jesus que nos falou de um Deus que é Pai e que faz qualquer coisa por nós, amando-nos. E Jesus nos revelou essa total confiança no Pai, abandonando-se totalmente ao Pai até ao fim: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.” (Lc 23,46)E nós como cristãos devemos viver essas dimensões da humildade e da simplicidade, características de confiança do bebê ao amor da mãe ou daqueles que o criam. 

O desafio hoje é fazer essa experiência de um Deus tão próximo da gente para transformarmos a nossa realidade, numa realidade de humildade que permita uma convivência de transparência e fraternidade. Concluindo lhe pergunto: a nossa sociedade é muito violenta, é barulhenta e competitiva demais, e você se deixa atrair por ela ou busca os valores da humildade, simplicidade e da oração que fazem mudar a sua vida cristã? Busca em Deus a plenitude da sua vida, rejeitando os sucessos que o mundo lhe oferece? 

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.