27 de novembro, 2015 - Belém

Por que tanto mal no mundo?


As cenas de dor e morte que a mídia nos repassa diariamente nos espantam e nos deixam inquietos e tristes. Tudo isso gerado pela guerra e pela ganância do ser humano. Às vezes, não precisamos assistir pela mídia, mas presenciamos também debaixo dos nossos olhos, violências desmedidas nos bairros, casas e comunidades. Por que tudo isso? Por quê? Parece que o mal avança cada vez mais entre nós. Como entender isso? Afinal, a humanidade está dominada pela maldade? O que gera toda essa violência e morte em nosso meio? Essas e outras perguntas circulam entre nós. Eu vou tentar dar uma resposta a tudo isso, iluminado, sobretudo, pela minha fé cristã.  

O ser humano se experimenta dividido e combatido: cada ser humano faz essa experiência (cf Gaudium et Spes – Concílio Vaticano II). Trata-se de dar razão a essa situação, que é de toda a humanidade: por que o ser humano se experimenta assim dividido interiormente? Dominado pelo mal? A experiência desta situação de mal, presente no mundo, é reconhecida pela Revelação e explicada com a solidariedade entre as pessoas no mal, a causa de um “pecado das origens”. Portanto, a causa do mal, no qual somos inseridos, é de se atribuir ao ‘pecado de Adão’ e mais ‘os pecados dos seres humanos’, que são além do mais os nossos. Assim sendo, também nós, que nascemos depois de Adão, somos mediadores de ‘des-graça’.

O pecado de Adão se difere dos outros pecados porque é o primeiro: é aquele que inaugura uma história do mal, propiciando as escolhas dos seres humanos em um percurso negativo. O pecado de Adão demonstra ao homem e à mulher que eles podem escolher o mal e usar as suas liberdades nessa direção. Antes do pecado original, podemos imaginar que o ser humano ia ser orientado espontaneamente ao bem. Agora, no entanto, por causa do ato pecaminoso de Adão, o homem sabe que pode escolher também o mal. É como se tivesse aberto os olhos sobre as suas possibilidades de fazer o bem e o mal.

O ser humano não reconhece mais o outro como irmão: as lutas, as guerras, os homicídios, a violência... O pecado original é a condição de incapacidade ao bem e inclinação ao mal onde o ser humano vem a nascer hoje. Para cada ser humano, se repete o fato de Adão: cada criatura é criada em Cristo e é boa, mas nasce em uma situação de pecado, devido à ausência da graça. Essa privação de graça é motivada, por Adão, da sua ação de pecado; para os outros, pelo ‘clima’ de mal presente no mundo, gerado pelo Adão.

O pecado original gerado, portanto, é este vir ao mundo numa humanidade, que não comunica mais ‘graça’, mas ‘des-graça’. Esse afastamento de Deus, ficar longe Dele, isto é, afetando cada ser humano, pelo fato mesmo que vem ao mundo. Por isso, o pecado original é pecado próprio, porque toca ao vivo cada ser humano – também se a sua imputabilidade deve ser entendida em termos ‘analógicos’ e não unívocos – e é, por sua vez, fonte dos pecados pessoais. Pode-se ainda falar de ‘estruturas de pecado’, produzidas por pecados pessoais que também as reforçam e as confirmam.

Assim, o mal (do pecado de Adão, aos pecados pessoais, às estruturas de pecado) é cada vez mais forte e aumenta a sua presença no mundo. É assim chamado ‘efeito cascata’, aumenta cada vez mais. E para entender melhor tudo isso basta somente constatar a nossa realidade marcada de profundas divisões, dor e tristezas. Uma humanidade ameaçada. Aliás, parece que estamos tão acostumados à violência e às divisões que não percebemos mais a sua gravidade. É como um cirurgião que não se deixa impressionar pelo sangue derramado na cirurgia devido ao seu profissionalismo. Assim, nós, praticamente, não ficamos mais impressionados pela horrível violência cotidiana no nosso meio. 

Talvez nos impressiona ainda uma violência diferente que vem de longe pela mídia. A questão é se perguntar: como nós somos participantes desse cenário horrível de anti-humanidade? Creio que precise aumentar a nossa capacidade de autocritica para despertar a consciência de quem somos realmente e como contribuir melhor a nossa condição de irmandade. Para tudo isso é natural que necessitemos fazer uma experiência de Deus. Uma experiência de Deus que se torna, na verdade, uma verdadeira experiência humana. Uma humanidade se torna rica, na medida em que se torna rica de Deus. 

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net