19 de junho, 2014 - Belém

Papa incentiva projeto paraense


Foto: Arquivo pessoal

Na última segunda-feira (16), tive a feliz oportunidade de concelebrar uma missa ao lado do santo padre, o papa Francisco, na capela Santa Marta, no Vaticano. Foi um momento especial na minha vida de sacerdote. Afinal, não é todo dia que um padre tem a chance de celebrar a eucaristia diante do sucessor de Pedro. Posso dizer que tiver a sorte de encontrar o pontífice, sem esperar por muito tempo. Dois colombianos que também estavam conosco na capela esperaram um ano para ter o pedido de rezar com o papa atendido. Fiquei pensando: 'Por que tive a facilidade de, em pouco tempo, ter a chance de me encontrar com o papa?' Não tenho outra resposta, senão a de que isso são coisas de Deus. Vi e falei com o papa a poucos dias de retornar para Belém, depois de uma cirurgia feita em Treviso, onde fiquei por cerca de dois meses.

A missa com o papa Francisco começou, pontualmente, às sete horas da manhã. Estavam presentes um bispo, nove padres e apenas 20 fiéis leigos. Do começo ao fim da liturgia, observei com atenção os movimentos de Mario Bergoglio. Sua face expressava uma compenetração profunda; seus gestos não tinham formalidades. A homilia da missa me surpreendeu pela coragem do pontífice em definir a realidade sem muitos rodeios (do jeito que gosto). Francisco refletiu sobre o trecho do primeiro livro dos Reis (21, 1-16). A passagem bíblica conta que o rei Acab quis, de todo jeito, a vinha de Nabot, que era a herança dos pais, portanto, algo sagrado. Então, a mulher do rei Jezabel planejou uma estratégia para realizar o desejo egoístico do rei: levantar falsas testemunhas contra Nabot para depois mata-lo. Assim, o rei se apropriou da vinha tanto cobiçada.

Ainda hoje, disse o papa, a cobiça de muita gente leva à morte. É a famosa corrupção. 'Um pecado fácil, que pode acometer a pessoa que tem autoridade sobre os outros', explicou. Nesse momento, vi Pedro levantar a voz contra a corrupção que penetra a política, a economia e os eclesiásticos. De resto, acrescentou: 'Quando uma pessoa tem autoridade, sente-se poderosa, quase um deus'. Portanto, a corrupção 'é uma tentação diária', na qual podem cair políticos, empresários e prelados. Esse mal deixa profunda tristeza e vontade de libertação. E levantando a mão com o dedo erguido, perguntou o papa: 'quem paga essa corrupção?' Continuou ele: 'São sempre os pobres!; os pobres que não podem ser atendidos nos hospitais, as crianças sem escolas porque faltam recursos devido ao desvio do dinheiro público'.

Esses são os pobres materiais. Porém, são também os pobres espirituais, aquelas crianças que não aprenderam a fazer o sinal da cruz, não conheceram a catequese, não foram cuidadas; os doentes que não são visitados, os presos que não recebem atenção espiritual pelos eclesiásticos, porque estes estão demais preocupados consigo mesmo. Bergoglio insistiu dizendo que, para combater todos esses tipos de corrupção, precisamos ensaiar mais a humildade. Quem é humilde tem a coragem de servir e, no entanto, quem pensa somente em si quer explorar os outros. É muito simples, afirmou o santo padre, pela opção de vida que cada um quer fazer, se servir ou ser servido, perceber o que pode levar alguém para corrupção ou não. Os Nabot da vida existem ainda hoje, quando se passa por cima dos valores consagrados da vida para ter cada vez mais, ganhar sempre mais. 

No final da homilia, Francisco fez um convite à conversão, que passa pelo serviço aos outros, sobretudo aos mais necessitados. A corrupção será debelada, enfatizou, na medida em que tivermos coragem de seguir Jesus. Quando a missa acabou, tive a grata oportunidade de ficar alguns minutos com o papa. O tempo pareceu uma eternidade. Disse a ele que estava feliz em estar com Pedro e recebi um abraço como sendo de um amigo que há tempos não via. Francisco tem o poder de aproximar as pessoas e de encanta-las com seus gestos e palavras simples. Nunca me preocupei se um dia ia ou não me encontrar com o papa, mas com as respostas de Deus para tantos desafios da missão, entre elas, as que eu realizo em Belém, por meio de tantas atividades pastorais. 

Diante do papa, não poderia deixar de falar sobre o projeto da nossa Escola de 'Comunicação Papa Francisco', da Missão Friuli Amazônia, que oferece o curso técnico de Rádio e Televisão a jovens, nem do Movimento pela Verdadeira Comunicação (Movecom), que alimenta a vida espiritual de tantas pessoas em Belém. O papa, com muita firmeza e alegria, me disse para ir em frente, sem parar. Foram as melhores palavras de incentivo e apoio que ouvi nos últimos tempos. Antes de se despedir, Francisco me pediu que rezasse muito por ele e pela sua missão. Esse pedido de Pedro, para mim, é uma ordem. Não falharei. Esse encontro com papa Francisco confirmou a presença de Deus na minha vida e na caminhada da minha equipe. Um papa humilde, mas rico de fé; simples, mas rico de sabedoria que gosta de compartilhar a sua vida entre os filhos e filhas de Deus.     

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista. 

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net