10 de abril, 2014 - Belém

Palavra de Deus, fonte de comunicação - parte 7


A Palavra de Deus nos ensina a contemplar melhor a vida. Vejamos o caso de Maria, Mãe de Jesus. Ela se achava num profundo silêncio contemplativo, quando o arcanjo Gabriel lhe dirigiu a palavra. Maria conseguiu dialogar com o mensageiro. As suas palavras foram poucas, simples, mas, ao mesmo tempo, suficientes. Entretanto, no começo do encontro entre os dois, ela se sente embaraçada, perturbada, porque estava acontecendo algo de anormal: a jovem mulher, sem papeis importantes na sociedade, era a destinatária da saudação de uma pessoa extraordinária que lhe fazia grandes promessas, reconhecendo nela grandes valores. 

Ela ficou profundamente perturbada. Então, eu me pergunto: como podemos perceber a presença de Deus em nossa vida, se não somos capazes de criar momentos de silêncio em nossa vida cotidiana? O nosso esforço intelectual é tentar imaginar Maria imergida pela interpelação do arcanjo. Compreender a sua reação é rever toda a nossa vida dia a dia. Mas, quantas vezes não sabemos o que fazer para responder a certos fatos da vida? Maria, com toda a atenção, buscou ouvir atenciosamente o enviado de Deus para melhor dialogar. A este ponto surge naturalmente uma pergunta: conseguimos reconhecer os enviados de Deus em nossa vida? Deus não falou somente naquele tempo e a uma só pessoa, mas em toda a história da humanidade. Portanto, também no nosso tempo. Estamos percebendo isto?

Um bom comunicador está atento a tudo. Não tem preconceitos. É aberto a qualquer situação. Maria consegue compreender melhor a sua vida, a sua história, a partir do encontro com o anjo. Deus, sendo assim, não pode ser encontrado fora da nossa realidade, da nossa vida e dos nossos acontecimentos. Toda a Bíblia nos confirma que Deus toma por primeira a iniciativa de se fazer presente na vida do ser humano. Maria quis demonstrar toda a sua consciência, reconhecendo a presença ativa de Deus na história, dando aquela sublime resposta de confiança: “aconteça de mim aquilo que o Senhor falou”.

O ato contemplativo induz Maria a perscrutar, na própria vida, a se encontrar e a descobrir a si mesma. Uma verdadeira comunicação se abre sempre aos outros, mas, ao mesmo tempo, consegue se encontrar como pessoa. Às vezes, tenho a impressão de que o maior perigo para as pessoas não são os outros, mas as próprias pessoas porque não conseguem se encontrar, conhecer-se. Maria nos mostra, ao recebeu a mensagem do anjo, entender que tudo isto era obra de Deus. Quantos de nós experimentamos este fenômeno comunicativo de uma saudação e de uma mensagem de Deus? Creio que seja esta a maior experiência que o ser humano possa fazer. O testemunho daqueles que não conseguem crer é porque não tiveram a capacidade e a constância de fazer aquilo que Maria tem feito: encarnar a Palavra de Deus na própria vida.

Às vezes, porém, têm aqueles que crêem e pensam e pretendem conhecer Deus somente porque falam habilmente dEle, ou conhecem algumas colocações, estudando ou escutando alguém no passado ou no presente. É o perigo do comunicador profissional que deve encher tantas páginas, espaços e tempos em radio e televisão, sem ter conteúdo, tornando a comunicação um preenchimento de palavras vazias, sem a experiência do encontro que abre sempre novos horizontes e perspectivas de vida. O elemento racional não é garantia de uma verdadeira experiência de Deus.

De fato, reconhecemos que Maria não teve uma preparação cultural de “alto nível”, como dissemos hoje. Mas a sabedoria que lhe provem do alto nos mostra uma capacidade semiológica extraordinária. Ela teve a capacidade de interpretar os sinais que vem de Deus e, assim, acolheu a sua mensagem. Nós sabemos que existe comunicação quando o comunicador e o receptor se identificam. A grande maravilha é constatar a capacidade de Maria de se identificar com Deus. O bom comunicador deve passar por esta experiência como Maria vivenciou.

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