08 de maio, 2014 - Belém

Palavra de Deus, fonte de comunicação - parte 11


Na semana passada, vimos a trajetória do apóstolo Paulo, na perspectiva da comunicação. Agora, queremos indicar outros elementos que enriquecem a vocação de comunicadores e que são importantes na vida de qualquer ser humano. Paulo, tendo ficado cego, não pôde caminhar. Foi guiado até Damasco e ali perguntou ao sacerdote o que deveria fazer. Cada comunicador deveria ter a humildade histórica de fazer o mesmo: perguntar ao Espirito Santo e aos menos favorecidos o que deveria fazer. Esta humildade é fundamental, a exemplo de Jesus que se encontrou com uma prostituta e disse 'mulher dá-me de beber!'

O diálogo é essencial para a formação da pessoa, sobretudo para quem tem como ofício a profissão de comunicador. A prepotência do comunicador está no fato de pensar e querer que os outros lhe devem tudo. Aliás, às vezes, ele chantageia porque acha que tem poder de humilhar ou exaltar a vida dos outros. Outra experiência importante de Paulo é a mudança do nome. De Saulo vira Paulo. Ruptura e continuidade. Algo que muda e algo que fica. Todos somos cegos, em certo sentido. Paulo reconhece que é na cegueira, no cair por terra, na fraqueza, que se sente forte. 

Cada comunicador precisa se questionar sobre a própria vocação ou profissão e ver se é capaz de criar rupturas de vida, que poderiam tirar a liberdade de ação e de interpretação daquilo que fica perante ele. Para fazer isso, precisamos criar 'desertos' no meio de tantas confusões e barulhos, que o mundo da comunicação difunde. E o deserto que entendemos não é o geográfico, mas, sim, 'morar consigo mesmo sob os olhos de Deus', como os grandes monges Bento e Gregório o interpretaram. O deserto tem um significado, unicamente, funcional e pedagógico. Na ótica cristã, aquilo que justifica é somente o amor.

É a cela do coração que nos acompanha em todo o lugar. Portanto, não é exclusividade de ninguém. Podemos colocá-la em ação em qualquer momento para nos revigorar na nossa espiritualidade. Estamos vendo hoje que aquilo que condiciona mais o ser humano não são tanto as programações em si, mas as tecnologias, as técnicas, o sistema audiovisual, isto é, a impulsão do raio de luz e do áudio, que fazem vibrar a emotividade, o gênero rápido, emocional, violento, sem lógica e global.

Assim, cada fenômeno hoje é, antes de mais nada, influenciado pelas consequências subterraneas da revolução tecnológica. Não somente existe uma 'pessoa audiovisual', uma juventude crescida perante a televisão e o computador, mas é, como diz o famoso padre Pierre Babin, 'a inteira sociedade que está mudando o seu modo de ser. À cultura literária de ontem, sobrepõe-se uma outra cultura. E por cultura, entendo o conjunto dos meios através dos quais um grupo humano resolve os problemas de significado e dos valores da existência. A velha cultura perde força e poder. Evangelizar, hoje, quer dizer evangelizar uma nova cultura fundada sobre o poder da eletricidade e da mídia'.   

Na comunicação, o testemunho não pode se limitar à explicações de conteúdos intelectuais, mas, além disso, quer dizer salvar. Em termos de comunicação, pode-se traduzir: estimular a vida para que seja plena de ser. Através da mídia, por exemplo, testemunhar para se solidarizar com as pessoas abandonadas, fazer alcançar uma voz externa àqueles que estão presos, fazer compreender novos horizontes de felicidade. O comunicador de fé não pode pensar em cumprir uma ação isolada, mas deve fazer partir o seu testemunho de uma comunidade cristã que viva plenamente uma experiência de Deus. O comunicador, no seu caminho espiritual, não pode pensar que seja suficiente vibrar as vozes do mundo. É, no entanto, fundamental vibrar à voz de Deus.

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