20 de março, 2014 - Belém

Palavra de Deus, fonte da comunicação - parte 4


Jesus, fonte inexaurível de comunicação, através da unção em Betânia (cidade perto de Jerusalém), nos dá diretrizes para o ato de comunicar. O trecho do Evangelho em consideração é tirado de Marcos 14, 3-9 em que mostra Jesus hóspede na casa de Simão, o leproso. No episódio, uma mulher se aproxima do Mestre trazendo um frasco de alabastro, cheio de perfume muito caro, para derramar sobre sua cabeça, enquanto estava à mesa.

Foi uma breve pausa para o descanso de Jesus e seus discípulos, improvisadamente interrompido pelo aparecimento da mulher. Este episódio interrompe a atmosfera de serenidade que se achava o grupo. Os primeiros a tomar a palavra foram aqueles que se indignaram e disseram: “por que esse disperdício? Teria sido melhor vendê-lo (o perfume) para doar o dinheiro aos pobres”.

O Mestre, no entanto, é calmo e conivente com a mulher que cumpre o seu ato de homenagem. Somente quando ela terminou a unção, Jesus, que ouviu a crítica dos presentes, dirige-se a eles e pergunta: “Por que a aborreceis? Deixai-a”. E acrescentou: “ela praticou uma boa ação para comigo”. Com estas palavras define o gesto que espantou os discípulos.

Um gesto de veneração em relação a Jesus e por ele reconhecido. Uma comunicação não interesseira nunca é maldosa, mas sim transparente. Porém, o Mestre não parou o discurso ali. Ele acrescentou: “Os pobres os terei sempre convosco quando quiserdes, mas a mim nem sempre tereis”. São palavras que ligam o fato a sua missão evangelizadora e, sobretudo, a sua iminente paixão. “Ela fez o que podia: antecipou-se ao ungir o meu corpo para a sepultura”.

As últimas palavras que pronuncia são proféticas. Em verdade, vos digo que por toda parte onde for proclamado o Evangelho, ao mundo inteiro, também o que ela fez será contado em sua memória”. É um episódio, este da unção em Betânia, que apresenta uma tranquila pausa de Jesus na casa de Simão, o leproso. A vida pública de Jesus não conhece limites tanto menos interrupções.

Na casa de Simão, eles estão tranquilos, recolhidos ao redor de uma mesa. Gesto simples da lida doméstica, interrompido quando do aparecimento da mulher do perfume. A cena muda totalmente. Jesus está sendo perfumado; e os convidados comentam negativamente aquele ato. Depois o discurso de Jesus se desenvolve gradualmente até chegar ao anúncio da morte do Mestre.

Retornando sobre a narração do ponto de vista comunicativo, pode-se refletir sobre algumas palavras como o termo perfume, o qual representa a beleza da vida e o saber dar o melhor de si. Isto demonstra a ligação entre quem doa e quem recebe. Aquilo que é derramado sobre a cabeça é um elemento precioso que evoca a realeza. Portanto, uma ótima comunicação espalha de perfume o contexto da ação e favorece uma empatia entre os sujeitos envolvidos.  

A palavra casa, por sua vez, indica a familiaridade, a boa comunicação. Assim sendo, para obter uma boa comunicação é necessário sempre manter um espírito doméstico para que permita uma garantia de transmissão do pensamento e da ação. Um clima hostil, adverso, certamente alimentará desconfiação e  incompreensão.

Uma verdadeira comunicação será sempre despojada de cada interesse não altruístico, de afirmações, de promoções porque vê naquele que está a sua frente a parte melhor da vida. É esta força persuasiva de reconhecer no outro a parte melhor que renderá fácil uma boa relação, dando resultados mais que positivos e satisfatórios.

Uma boa comunicação nunca será partidária, mas terá sempre esta preocupação de ir além daquilo que aparece para ser cada vez mais objetiva. 

Às vezes, contemplo essa nossa realidade como inimiga da verdadeira comunicação, porque tenho a impressão que dá muita ênfase ao falar fácil e improvisado, sem respeitar o profundo da realidade. Jesus tudo isso nos ensina.

*Cláudio Pighin é sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

Email: clpighin@claudio-pighin.net