27 de fevereiro, 2014 - Belém

Palavra de Deus, fonte da comunicação - parte 1


Minha curiosidade para compreender a comunicação e torná-la mais eficaz em minha vida me levou a concentrar toda a atenção, inclusive científica, na pessoa de Jesus. Como Ele comunicava? Para responder a questão, teremos, de agora em diante, uma série de reflexões e estudo, a partir de trechos do Evangelho, para pesquisar como o Mestre conseguia se comunicar e quais os elementos técnicos e comunicativos são possíveis para discernir o seu testemunho evangelizador.

Em breve, queremos perguntar como foi que esse Filho de carpinteiro conseguia sempre se fazer entender pelos seus destinatários. E mais: como era que sua mensagem produzia sempre frutos, tanto no bem quanto no mal? Como era que sua palavra tornava-se, assim, convincente, crível, diferentemente dos outros pregadores? Com a reflexão de trechos do Evangelho, tentaremos responder a esses questionamentos.

O primeiro trecho que vamos deparar é Jesus e a pesca milagrosa (Lc 5, 1-11). Assim abre a narração: 'Certa vez, em que a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus, à margem do lago de Genezaré, viu dois pequenos barcos parados à margem do lado'. O comportamento de Jesus, comprimido pela multidão, é sereno e impassível. Não somente ele perscruta a situação, mas chega ao ponto de se identificar com ela. Assim, o Mestre fica calado e o povo, que está ao seu redor, silencia. 

É o silêncio da espera: silêncio da espera de Jesus que está preparando uma nova iniciativa. Silêncio do povo que, por sua vez, espera ver o que fará o Senhor. Estes são elementos essenciais para um bom comunicador. Aquele que comunica uma mensagem deve estabelecer uma situação que favorece uma simbiose, sintonia com os seus destinatários e com o próprio ambiente onde ele se acha. Assim, o silêncio pode entrar nesta ótica, constituindo um importante momento comunicativo.

O texto de Lucas continua: 'Os pescadores haviam desembarcados e lavavam as redes. Subindo em um dos barcos, o de Simão, pediu que se afastassem um pouco da terra. Depois, sentando-se ensina dos barcos a multidão'. O primeiro objetivo é alcançado por Jesus: palavras e gestos se entrelaçam de um jeito harmônico. É, sobretudo, interessante a despedida da multidão. Não tem sinais de aplausos nem pedidos fanáticos, simplesmente, a multidão se afasta tranquilamente.  

Jesus foi estratégico ao escolher o barco para falar ao povo. Tecnicamente, de lá era possível propagar melhor sua mensagem, dado que as águas favoreceriam a difusão do som e, assim, todos poderiam ouvi-lo. É bom lembrar que naquele tempo não existiam alto falantes nem microfones. Isto significa o quanto é importante, hoje, a escolha de um meio apropriado para integrar a comunicação e as formas encontradas para superar os grandes obstáculos técnicos existentes nessa área. 

Prosseguindo a página de Lucas, o evangelista mostra o diálogo de Jesus com os seus discípulos. Pedro pronuncia palavras de fé, sem duvidar perante Jesus que o convida a refazer a pesca. A comunicação é sempre confiante na sua ação, porque tem objetivos claros para alcançar e apostar. A comunicação traz em si sempre também admiração porque leva sempre novas perspectivas, novas realidades. A verdadeira comunicação tem sempre uma concepção positiva de enfrentar a realidade. 

Assim, o acontecimento enche de maravilhas os pescadores, mas somente um toma ainda a palavra. É a necessidade da liderança. Este episódio nos ilumina a ação pública de Jesus. Uma vida intensa, sem palavras supérfluas, mas bem selecionadas e vitais. Na comunicação, isto significa o quanto é importante a consciência de cada linguagem, tudo deve ser estudado nos mínimos pormenores para que cada linguagem possa convergir em uma única mensagem.

*Cláudio Pighin é sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

Email: clpighin@claudio-pighin.net