15 de maio, 2014 - Belém

O ser humano empobrecido no solo urbano


Parei, tempos atrás, em um semáforo da BR-316, no sentido Ananindeua-Belém, e me deparei com uma cena que defino ao menos comovente, além de ser questionadora. Uma senhora sentada à beira da estrada com uma criança ao lado. Era uma mulher com trajes humildes e descalça. Com um rosto triste, segurava nas mãos uma simples e mutilada boneca. Ela fazia carinhos nela, fitava-a e não se preocupava com a multidão dos veículos barulhentos que transitavam por lá. A criança que estava ao seu lado, de vez em quando, olhava para a senhora, mas não havia movimentos de lábios para que pudesse perceber se falavam entre si. 

Única coisa que pude perceber e que se gravou bem na minha mente nesse breve tempo até a reabertura do sinal foi a imagem da mulher e da criança sentadas na margem da pista, onde quem brincava era a senhora e não a criança. Aquelas mãos da mulher que acariciavam a boneca e o seu olhar concentrado no brinquedo me deixaram com muitas curiosidades: por que é a mulher que brinca com a boneca e não a criança? Por que a concentração na brincadeira a deixava indiferente ao barulho estrondeante da estrada? Será que esse lugar não se diferenciava do lugar da sua morada? Qual será o seu sonho de vida? 

Essa cena tem uma mensagem bem clara: uma escrava sem algemas ou confinamentos. Essa nova escravidão que estamos assistindo na nossa vida urbana é um verdadeiro grito da humanidade. Um dia, falando com um garoto numa esquina da cidade, ele me disse que precisava ajudar a mãe para criar os três irmãos: 'lá em casa, às vezes, não temos o que comer'. A rua é uma tentativa de encontrar uma resposta às inquietações da vida deles. A rua é considerada também como um lugar de trabalho. Mas nós sabemos que na rua o ser humano está exposto a tudo, tanto ao bem quanto ao mal. 

Aliás, eu diria que a rua expõe mais para as coisas que não prestam. É uma educação da rua que deixa o ser humano a mercê de tudo, sem discernir as consequências. Aí se compreende o porquê da violência que praticam essas pessoas. Compete a nós entender esses seres humanos e não simplesmente condena-los, porque isso não resolve a questão. A ilusão da 'força' para combater a violência é sinal da fraqueza de uma sociedade organizada. Nesse sentido, essas cenas se tornam mensagens para a sociedade, com o dever em saber recepciona-las. Por exemplo, a fotografia da senhora com a boneca e a criança é condensada a marginalização e escravidão das pessoas nos dias atuais. 

Uma nova escravidão se faz presente entre nós. E o solo urbano parece que a favorece. Sendo assim, a cidade, a grande cidade, tem que ser revista, para que possa libertar as pessoas e leva-las a viver as dignidades que lhes são próprias. As autoridades, da classe política à religiosa, deveriam se empenhar com todas as forças para dar uma resposta urgente a esta aglomeração social que nós chamamos de cidade. Quando conseguirmos construir verdadeiras relações de convivência humanas pacíficas e fraternas, poderemos construir também verdadeiras cidades. 

Talvez hoje estejamos demais preocupados nas estruturas e nos esquecemos de fato o ser humano. Não é suficiente dar esmolas para as pessoas, mas é preciso dar respostas mais objetivas. Como a da doutora Aline, quando um pobre, depois da missa, pediu a ela uma ajuda. Ela, sensibilizada, pediu que o seguisse até a sacristia. Logo em seguida lhe disse: 'eu não quero te dar uma esmola porque ela vai acabar bem rápido; o que eu quero é te dar uma ajuda para sempre'. Qual foi a ajuda que lhe propôs? Anotou em um papel o endereço da sua atividade de trabalho para que se apresentasse na segunda-feira para ter um emprego. 

Tanto a iniciativa privada quanto a pública deveriam dar respostas objetivas como a da senhora Aline. E isto é possível. São essas atitudes que nos aproximam mais das pessoas e nos tornam mais democráticos e menos concorrentes. Para isso, precisamos nos despojar de ganâncias, de egoísmos e nos revestir de altruísmo, de amor pelo próximo. Parece que a nossa sociedade não gosta muito de amar, porque está demais concentrada em seus planos egoísticos que favorecem uns, e são poucos, e esquece os outros. Aproveito para parabenizar todas as mães, sobretudo quem mais sofre, quais nossa verdadeira esperança de vida. 

*Claudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net