22 de janeiro, 2015 - Belém

O Papa e os movimentos populares - parte 4


Continuo o pronunciamento do Papa da semana passada sobre os movimentos populares: “Há pouco disse, e repito-o, que estamos a viver a terceira guerra mundial, mas por etapas. Há sistemas económicos que para sobreviver devem fazer a guerra. Então fabricam-se e vendem-se armas e assim os balanços das economias que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro obviamente estão salvos. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas casas destruídas, não se pensa nem sequer nas tantas vidas destroçadas. Quantos sofrimentos, quanta destruição, quantas dores! Hoje, queridos irmãos e irmãs, eleva-se de todas as partes da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o brado da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema económico centrado no deus dinheiro tem também necessidade de saquear a natureza, saquear a natureza para manter o ritmo frenético de consumo que lhe é próprio. A mudança climática, a perda da biodiversidade, a deflorestação já estão a mostrar os seus efeitos devastadores nas grandes catástrofes às quais assistimos, e quem sofre mais sois vós, os humildes, vós que viveis nas zonas litorais em habitações precárias ou que sois tão vulneráveis economicamente que perdeis tudo face a um desastre natural. Irmãos e irmãs: a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor a nosso bel-prazer; e muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos. A criação é um dom, uma dádiva, uma doação maravilhosa que Deus nos deu para que dela nos ocupemos e a utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez saibais que estou a preparar uma encíclica sobre a Ecologia: estai certos de que as vossas preocupações estarão presentes nela. (...)

Falamos de terra, de trabalho, de casa. Falamos de trabalhar pela paz e de cuidar da natureza. Mas então por que nos habituamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se afastam os camponeses, se faz guerra e se abusa da natureza? Porque neste sistema o homem, a pessoa humana foi deslocada do centro e substituída por outra coisa. Porque se presta um culto idolátrico ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! A indiferença foi globalizada: que me importa do que acontece aos outros para defender o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se órfão porque pôs Deus de lado.

Alguns de vós disseram: este sistema já não funciona. Devemos mudá-lo, devemos voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre aquele pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas das quais precisamos. Com paixão, mas sem violência. E todos juntos, enfrentando os conflitos sem cair na sua cilada, procurando resolver sempre as tensões para alcançar um nível superior de unidade, de paz e de justiça. Nós cristãos temos algo muito bonito, uma linha de acção, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-vos vivamente que o leiais, que leiais as bem-aventuranças no capítulo 5 de são Mateus e 6 de são Lucas (cf. Mt 5, 3 e Lc 6, 20), e também o trecho de Mateus 25. Disse isto aos jovens no Rio de Janeiro, nestas duas narrações tem o programa de acção.

Sei que entre vós há pessoas de diversas religiões, profissões, ideais, culturas, países e continentes. Hoje estais a praticar aqui a cultura do encontro, tão diversa da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos com muita frequência. Produz-se entre os excluídos este encontro de culturas no qual o todo não anula a particularidade, o todo não anula o particular. Por isso me agrada a imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitos lados diversos. O poliedro reflete a confluência de todas as parcialidades que nele conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje estais a procurar a síntese entre o local e o global. Sei que estais comprometidos todos os dias em coisas próximas, concretas, no vosso território, no vosso bairro, no vosso lugar de trabalho: convido-vos também a continuar a procurar esta perspectiva mais ampla; que os vossos sonhos voem alto e abracem o todo!

Por isso me parece importante a proposta, da qual alguns de vós falaram, de que estes movimentos, estas experiências de solidariedade que crescem de baixo, do subsolo do planeta, confluam, sejam mais coordenados, se encontrem, como fizestes vós nestes dias. Atenção, nunca é um bem conter o movimento em estruturas rígidas, por isso disse encontrar-se, e procurar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo ainda menos; os movimentos livres têm uma sua dinâmica, mas sim, devemos procurar caminhar juntos. Estamos nesta sala, que é a sala velha do Sínodo, agora há uma nova, e sínodo significa precisamente «caminhar juntos»: que este seja um símbolo do processo que iniciastes e que estais a levar por diante!

Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes desviadas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação como protagonistas das grandes maiorias e este protagonismo transcende os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo de paz e de justiça duradouras pede que superemos o assistencialismo paternalista, exige que criemos novas formas de participação que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum. E assim com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor”. (Papa Francisco)